VIDA

Ela sobraça um ramalhete de flores , colhidas todas no jardim de sua casa. São umas margaridinhas, lírios, crisântemos, escolhidas meio a esmo, sem muito critério: qualquer combinação destas flores é bela. Pega então as plantas antigas, que estavam no vaso, e deposita-as no latão de lixo que fica no final do corredor, cheio de outras tantas flores. Lava bem o vasilhame, enche-o com água fresca da torneira e deposita neles, cuidadosamente, o novo e delicado buquê. Sem pressa ela faz isso, gostando daquele tempo, enquanto conversam.

Então se abaixa e, com certa dificuldade, começa a arrancar aqueles tufinhos de grama que estão a mais, desbordando entre as lajes. Quem passar por ali talvez até ache meio antiecológico o que ela faz, mas há tanto carinho e delicadeza em seus movimentos, eles significam tanto que ninguém sequer pensa em comentar qualquer coisa. E ela segue com seu labor pequenininho, tictictictictic, até que olhe de longe e considere tudo muito limpo, um primor. Também sem pressa nenhuma ela faz isso, enquanto conversam.

Depois retira da bolsa um saquinho plástico, e dentro dele há dois panos Perfex e um tubo de detergente. Despeja o detergente em um dos paninhos e esfrega-o com força nas datas, no nome, na fotografia, na mensagem, no entorno, e só cessa quando acredita que todo aquele conjunto esteja brilhando. Aguarda uns minutos (enquanto conversam) , então pega o outro pano e, mesmo com os braços um pouco cansados, repete toda a operação – para que brilhe ainda mais. Não reclama do cansaço, ele é bom – e, enquanto trabalha, eles conversam.

Depois, obra pronta, ela se sente um pouco cansada de toda aquela faina, o trabalho meio pesado para as décadas de seu corpo. Mas não reclama, porque agora é que vem a parte melhor: é a hora em que apenas ficam a conversar, ela e ele.

Conversam, conversam, conversam.

Foi desse jeito a vida inteira, pensa ela: por que não será assim também agora?


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