O CELULAR DO MEU FILHO

O pai entrou na sala do diretor da escola, com quem havia agendado a reunião, e sentou-se sem pedir licença; era um homem ocupado, o assunto precisava ser rápido.

“Eu gostaria de saber por que recolheram o celular do meu filho.” – a voz objetiva.

“Porque ele estava falando no meio da aula.” – respondeu o diretor, simples. E complementando, como se fosse necessário – “E isso atrapalha.”

“Mas ele estava falando comigo! Eu sou o pai dele! E podia ser algo urgente!”

“Sim, mas atrapalha igual. Se todos os alunos resolverem falar rapidinho ao telefone, sempre vai ter alguém telefonando durante a aula inteira. O senhor entende. ” – o diretor tentava ponderar – “E para assuntos urgentes, existem os telefones da escola.”

“Mas precisava tirar o telefone dele?”

“É que era o segundo ou terceiro telefonema do seu filho, naquele período.”

“Sim, mas o guri já está nesta escola desde que era pequeno... e eu nunca atrasei uma mensalidade! Sou um ótimo cliente! Então bem que podiam ter relevado, só dado uma conversada com ele!” – a voz do homem era dura.

“Não dava. Se deixasse ele fazer, teria que deixar os outros também. E aí ia virar uma esculhambação, que ninguém – nem o senhor! – iria gostar. Precisa haver disciplina.” – a voz do diretor também era.

O pai ficou em silêncio por um tempo, depois olhou o relógio – precisava ir logo, a tarde cheia de reuniões; e era sua mulher quem devia estar ali, ela que sabia destes assuntos.

“Pois bem.” – disse ele, afinal. – “E quando vão devolver o telefone do meu filho?”

“Já foi devolvido. Ele não lhe contou?”

“Não, não tive muito tempo pra conversar com ele.” – e se despediram, ambos sem sorriso.

*****

Este pai não dá limites e também não quer que a escola dê. Só porque acha que é um bom cliente – pensa o diretor.

Ele se acha cheio de razão só porque é o diretor - pensa o pai. Se recolherem o telefone do guri de novo, acho que vou processar a escola.


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