A FILHA DA DONA MARLENE

Jô estava saindo do supermercado, carregando umas sacolinhas poucas, quando a senhora de sorriso largo e cristalino cumprimentou-a como se lhe desse um abraço.

“Oi, querida!” – ela quase gritou, havia alegria naquele semi-grito. – “Tudo bem contigo?” – e a mulher parou, parecendo pronta à conversa.

Jô estacou com o tanto de efusivo que escutara naquela saudação e, no segundo seguinte, tentou prestar atenção à mulher, ao seu jeito, suas feições, à graça do seu cumprimento: mas quem podia ser ela, Deus meu?

“Tudo...” – ela respondeu, torcendo para que a outra lhe desse uma pista. Ex-aluna não podia ser, era mais velha que Jô. Mãe de aluno ou aluna, talvez? Tantos e tantas haviam passado, nestes anos todos de magistério – como lembrar de todas as mães e pais?

Mas a outra, nada. Sorrindo, começou a falar do movimento do supermercado, dos preços dos produtos, a carestia e tudo o mais. Por que não lhe dava uma referência, qualquer comentário que permitisse à Jô localizá-la nos escaninhos vivos da memória? Um nome de filho, um lugar, qualquer indicativo – mas a mulher apenas falava nos preços, apontando o carrinho cheio, como se ainda ontem ambas tivessem conversado e estivessem agora seguindo a charla. Três, quatro, talvez cinco minutos a mulher falou, sem dar à Jô – que apenas concordava com a cabeça, um pouco atônita – tempo para responder.

Até que a mulher pareceu cansar-se dos próprios comentários e resolveu se despedir.

“Manda um beijo para a dona Marlene.” – disse ela, quando começava a se afastar.

“Dona Marlene?” – questionou Jô – “Que dona Marlene?”

“Ué, a tua mãe!...” – respondeu a mulher.

“Mas minha mãe não se chama Marlene. Chama Sonia.”

“Mas tu não é a Emília, filha da Marlene?” – a mulher intrigou-se.

“Não. Eu sou a Jô, filha da Sonia.” – respondeu Jô, sorrindo.

E a mulher, alçando as mãos à cintura:

“Mas tu não acha uma falta de respeito me deixar fazendo papel de boba este tempo todo?”


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