PAPAIS NOEIS

Ao final da fila no shopping center, lá estava ele: o Papai Noel. O ar pareceu faltar a Vitinho e aos seus quatro anos incompletos, quando ele e a mãe se aproximaram do bom velhinho, e ele sustentou sua coragem apertando a mão materna quando foi chamado para informar o que queria ganhar de presente. Acomodou-se tremendo na perna gorda e vermelha e foi com toda a timidez do mundo que conseguiu dizer ao Noel o que desejaria receber. Respondeu às perguntas que o barbudo lhe fazia com a timidez ansiosa da infância, fascinado por aqueles fios brancos que escorriam do rosto gordo e nem pareciam muito de verdade, mas que suas mãos infantes sequer pensavam em tocar. Conversaram ainda um pouco, o tempo suficiente para dizer que havia sido um bom menino o ano inteiro e para sua mãe tirar umas quantas fotografias, e quando a auxiliar do Papai Noel informou solicitamente que o tempo havia terminado, Vitinho desceu do colo natalino com certa emoção nova: o velhinho lhe dissera que não iria esquecer os seus presentes.

E quando saíram do shopping center, havia mais dois ou três Papais Noeis pelas ruas do centro, em frente às lojas.

No dia seguinte, Vitinho foi com o pai ao supermercado, e foi com nova alegria que soube que o Papai Noel também estava lá. A fila era menor e o pai, de bom humor e sem deixar de reparar nas mães que estavam ali com seus filhotes, esperou até que o moleque conversasse com o velhinho e fizesse o seu pedido. Vitinho já estava mais confiante, porque o Papai Noel já não era um completo desconhecido, mas o fato é que a barba agora lhe parecia de um material que não daria para ser chamado de cabelo, e o joelho em que estava sentado era bem mais ossudo que o do dia anterior. Conversaram um pouquinho, até que o próprio Noel, com um tapinha meio enfadado em suas costas, lhe disse que estava na hora de dar lugar a outra criança.



Dentro do mercado, Vitinho reparou nos televisores ligados todos no mesmo canal: na propaganda, um Papai Noel diferente gargalhava o seu houhouhou e anunciava o sorteio de um automóvel.

Papai Noel no shopping, outro no supermercado, outros tantos espalhados pela ruas, um na televisão, pensou Vitinho. O pai e a mãe lhe haviam contado que Papai Noel existia; só não haviam lhe dito que existiam tantos.

Ainda bem que pedi presentes diferentes ontem e hoje, pensou o menino.


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GRITO

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AQUI TEM –

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