O TERROR INSTALADO NOS OLHOS

É um homem de barba cerrada, o que está sentado à frente da poltrona do avião em que acabei de me acomodar. Na verdade, não bem à frente: uma fileira adiante, mas do outro lado do corredor. No corredor central - ali, o homem de barba cerrada. Posso observá-lo bem, da poltrona em que estou.

Mas não é só isso. Além da barba, o homem tem a pele bem escura, daquelas crestadas por uma espécie de sol eterno, inclemente. Da poltrona em que estou sentado, consigo observar a pele do homem: parece dura, vincada, a pele de quem está sempre tenso.

E não sorri, o homem. (Talvez ninguém no avião esteja sorrindo, agora, ocupados que estão todos em colocar as mochilas e sacolas nos compartimentos de bagagem de mão, apertando cintos e se instalando, mas só consigo reparar naquele homem). Tão sério, calado, distante – parece que não está neste mundo. Ou preparado para não estar, penso eu.

Ai, meu Deus! – também penso, enquanto sigo observando aquele homem tão sério, tão escuro e tão estranho. E uma sensação ruim me bate no estômago: levantaremos vôo daqui a pouco, indefesos todos a quilômetros acima do chão. Ai, meu Deus! – e olho outra vez para o homem, que segue em silêncio.

Vou chamar uma aeromoça e pedir que reparem bem neste cara, decido. Que lhe observem os movimentos.

E me alarmo ainda mais quando vejo que o homem puxa de um dos bolsos do seu casaco um livrinho preto e gasto, algo de muito uso. Logo me vem à mente a imagem que não queria: o radical pronto para tudo.



De repente, como se soubesse mesmo que estava sendo observado, o homem vira o rosto – a pele escura, a barba espessa, os olhos negros – e me percebe; ainda naquele instante, não sorri. Mas, no momento em que nossos olhares se enfrentam, o homem me deseja boa viagem. E quando faz isso, escorrega a mão e deixa à vista o título do livro: é uma Bíblia.

Suspiro aliviado, pronto novamente para a viagem.


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