DEPOIS DO NATAL

Guigo está sentado no sofá da sala, pensativo em seus três para quatro anos, e olha admirado para a árvore de Natal, coisa tão linda, que a mãe prometera que só irá tirar no ano que vem. Até o ano que vem – isto é tanto, tanto tempo, pensa ele. Olhos ainda brilhantes dos presentes, observa aquelas bolinhas coloridas, estrelas e papais noeis minúsculos que enchem a árvore de cima a baixo. E o presépio: todos aqueles bonequinhos legais colocados numa cabaninha, e que a mãe o deixara ajudar a montar, enquanto contava ao filho umas histórias que ele não entendera. Os bonecos mais bacanas são os cavalinhos, pensa ele.

E pensa (lembra) também no discurso que o pai fizera na noite do Natal. Guigo também não entendera muito, um pouco porque estava mais preocupado com os presentes que Papai Noel ia trazer mais tarde, outro tanto porque o pai tinha usado um monte de palavras difíceis e que não cabiam ainda em seu pequeno vocabulário. Mas era algo bom, isso Guigo sabe, porque as pessoas todas riram e aplaudiram. Mesmo quando o pai, logo depois do discurso, veio abraçá-lo, Guigo percebeu que não eram de qualquer tristeza as lagriminhas escondidas que teimavam em brilhar em seus olhos – e tranqüilizou-se. Afinal, Papai Noel estava chegando, nenhuma tristeza podia estragar a festa.

E ele pensa (lembra) na hora em que Papai Noel chegou. Nossa senhora! Foi um estardalhaço, toda a criançada numa alegria que parecia não caber na sala. Papai Noel também disse algumas coisas, falou no espírito do Natal e perguntou se as crianças haviam se comportado direitinho durante o ano, e todos responderam que sim, mesmo aqueles que tinham sido uns capetas. Depois, Papai Noel começara a distribuir os presentes, explicando à criançada que o trenó era muito grande e precisara ser deixado num estacionamento. Uau, pensaram todos, encantados – um trenó no estacionamento!

Guigo também pensa (lembra) da alegria e dos sorrisos dos primos e das primas, todos ganhando aquilo mesmo que haviam encomendado, até porque a mãe lhe havia dito que Papai Noel tem uma memória incrível. Brinquedos, jogos, capas de super heróis, até uma ou outra roupa, pacotes e papeis coloridos – Guigo lembra que a sala da casa virou uma festa.

Sentado no sofá, perninhas infantes que ainda não tocam o chão, Guigo contempla o pinheiro natalino e pensa nisso tudo.

Mas pensa, principalmente, em como achou o Papai Noel parecido com o tio Julio.


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