A GAROTA NO ÔNIBUS

Estou com o meu carro parado no semáforo, todos os vidros fechados e o ar condicionado ligado por causa deste calor insano prestando pouca atenção à música que toca no rádio e pensando levemente na vida, quando, no ônibus que agora mesmo parou logo ao lado, percebo a garota.

Sentada junto à janela meio aberta do coletivo, percebe-se que o calor a atormenta. Ela se abana com uma espécie de caderno ou algo parecido, enquanto aguarda que o veículo se movimente e o vento lhe dê qualquer sensação de frescor. Eu a observo e o fato é que não é muito bonita: terá vinte anos anos, talvez um pouco mais, e carrega na expressão um olhar sofrido; não sei o que o tempo fará com ela. Mas algo nela me chama a atenção e continuo a mirá-la.

Como se estivesse sentindo o meu olhar, a moça me percebe. Também olha para mim e sei - sei! – que estuda a minha expressão, meu gesto, minha mão parada no guidom, meu carro, tudo. E, de repente, o olhar vindo daquele andar de cima, ela solta algo parecido a um suspiro de desprezo, desconforto, e parece decidir que não existo mais.

Mas o que será, o que terá pensado de mim esta moça? O que haveria em meu olhar que a tenha incomodado tanto? Ou – mais ainda – o que terá sofrido em sua vida, para que um olhar inexpressivo e sem intenção como o meu lhe consiga despertar tamanho incômodo? O que foi que fiz além de olhá-la? E penso: como andam as coisas por este mundo...

Mas não quero que a reprovação gratuita daquela moça me persiga. É preciso que ela saiba que meu olhar não era nada demais, e que não sou o que ela talvez pense que eu seja.

Então baixo o vidro, rapidamente, e a chamo:

“Moça, por que este suspiro de desprezo?”

Ela então me olha novamente e sorri – seu sorriso parece iluminar o meu dia. E, quando começa a entabular sua resposta, o sinal abre e o ônibus arranca, enquanto o motorista do carro de trás já começa a buzinar minha lentidão.

A frase da garota se perde no barulho do motor.

Mas não faz mal: seu sorriso inesperado já me serviu como resposta.


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