O PERSONAGEM QUE ME ESCREVE

Acordo cedo, escovo os dentes, tomo um café e vou direto ao computador, decidido a terminar ainda pela manhã o conto que ontem comecei a escrever. Abro a tela e – coisa estranha! – o conto não está como eu o havia deixado. Parece não ter pé e nem cabeça, algumas partes sumiram. Confuso e meio estupefato, logo percebo a razão disso: o personagem principal desapareceu!

Olho para o computador um pouco atônito, sem saber o que fazer, até que escuto alguém chamar meu nome. Viro-me para o lado, em direção à voz desconhecida, e tomo um susto: acomodado na poltrona em que costumo sentar-me para ler, está o personagem principal do meu conto. Reconheço-o logo, claro; fui eu quem o escrevi.

“Fugi da tua história.” – ele me diz, à guisa de explicação. – “História fraquinha, cheia de chavões. Não dava para ficar nela. Muito ruim!”

Ainda sem saber o que dizer ou pensar (e também um pouco assustado com estas coisas que às vezes acontecem nos meus contos), não atino em responder nada, muito menos em defender a qualidade do texto – que, na verdade, está mesmo bem ruinzinho. Não sei o que fazer, com aquele personagem sentado próximo a mim, mas ele me livra da incerteza do instante.

“Vou te dar umas sugestões para melhorar este conto.” – e começa a me dar idéias de enredo, uns bons truques literários, acrescentar mais valor a uns e tirar o peso a outros personagens, avivar o texto. Só sugestões boas, reconheço.

Mas quando me viro para escrever, é como se o texto estivesse proibido de sair. Talvez eu esteja nervoso com aquele homem (é um homem, chama-se Denis) me olhando. Me observando.

Até que Denis (ele havia gostado do nome) decide resolver o meu problema. Aproxima-se e não ouso me mexer. Senta-se no canto de minha mesa de trabalho, um pouco atrás de mim e ordena:

“Vai teclando aí o que eu disser.”

E, palavra por palavra, começa a me ditar o conto. Que, ao final, fica bem melhor do que aquele que eu estava escrevendo.


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