O CARNAVAL DO SAFADÃO

A avó observa, algo divertida, a neta e as amigas se arrumarem para o carnaval. É uma festa antes da festa, pensa a velhinha: as meninas riem uma da outra, de tudo e de nada ao mesmo tempo, enquanto vão se fantasiando de odaliscas, guerreiras ou apenas se enchendo de panos coloridos. Até que a avó, curiosa, decide perguntar:

“Gurias, qual é a música que vai ser sucesso neste carnaval?”

“Ah, é o Wesley Safadão!...” – as meninas respondem, rindo.

“Mas isso é nome de música?” – a senhora, curiosa.

“Não, vó!” – as meninas riem, uma algaravia. – “Este é o nome do cantor!... Ele é que vai ser sucesso no carnaval. O que é que a gente vai cantar, gurias? – pergunta a neta, sabendo a resposta. E as meninas, em coro:

“Mas eu não vivo em você / E você não vive sem mim / Ela me conheceu cachorro / E se apaixonou por mim assim. / Eu apronto, ela perdoa / Eu vou pegando todo mundo / Nessa história ela é a dama / E eu sou o vagabundo.”

“Nossa, que horror!” – exclama a avó. “Essa música é do tal do Safadão mesmo? É bem o nome dele. E vocês cantam esta bobagem?”

“Ah, vó! É só uma música...”

“Não, não é só uma música! Olha só o que ele fala! Ele, o safadão, até pode cantar esta porcaria! Mas vocês, mulheres, não!...”

As garotas se olham, ironia e cumplicidade em seus sorrisos, e a neta comenta:

“Minha vó, viram? Ela é pau-ferro!” – e dão risada, elas. Depois, um pouco mais séria, dirigindo-se à senhora. – “Mas não te preocupa, vó. É só uma música, mesmo.”

“Que vocês cantam e reproduzem!” – a velhinha, exaltada.

“Não, vó, nem esquenta. É mesmo só uma música. E agora, chega de papo, porque a gente precisa se arrumar para a festa” – segue a neta, enquanto uma das amigas recomeça a cantarolar. – “São outros tempos, vó. São outros tempos”.

Tempos estranhos, pensa a avó. Mas ainda vou conversar sério com esta guria.


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