OS TESOUROS

A menina examina seus tesouros em frente ao espelho.

Não terá mais do que dez anos, a pequena, e não é necessária demasiada atenção para saber que é pobre de marré: o vestidinho remendado, as pernas finas e compridas, os chinelos gastos com que enfrenta também o inverno. Ajuda a mãe a recolher papelões, latas de cerveja e refrigerante, e é nesta caminhada de pouco futuro em que gasta os seus dias.

Por isso, dá tanto valor aos seus tesouros. Estes, que ele agora olha com carinho em frente ao espelho.

São coisinhas de infância - e também são fortunas. Uma escova de cabelos cor-de-rosa, a caixa inteirinha com seis lápis de cor (que doido a haveria jogado fora, pensa ela), a boneca sem braços e cega que ela havia batizado de Mafalda sem saber bem o porquê, o par de tênis que pouco calça porque ainda estão grandes demais, dois carreteis de linha com que brinca de carrinho sempre que pode, um aparelho celular antigo que usa para fazer todas suas ligações imaginárias. É mais ou menos isso, acho que param por aí.

Seus tesouros, todos eles dispostos em frente ao espelho.

Ela, a irmã maior, passa o tempo inteiro, sol e chuva, auxiliando a mãe na procura daquilo que, mais adiante, vendem e transformam em sustento. O pai, que antes fazia isso, meio que foi embora. A menina então percorre a cidade inteira, chlep-chlep em seus chinelos de borracha, e enche de latas e papelões os seus bracinhos magros. E, às vezes, nestas caminhadas, ela também acha as suas fortunas.

Como o espelho.

Este espelho que achou hoje à tarde, quando a mãe e ela recolhiam o que desse pelas lixeiras da cidade, e que serve para duplicar os seus tesouros: cada luxo agora são dois luxos.

E porque duplica todos os outros, este espelho é agora, ele mesmo, o maior tesouro da menina.


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