PRIMEIRO DIA DE AULA

Vitinho amarra com certo cuidado orgulhoso os cadarços do par de tênis, o nó meio pirata que um amigo de Porto Alegre lhe ensinara em Tramandaí (a gente aprende um monte de coisas bacanas no veraneio, pensa ele). Deseja que os pisantes estejam impecáveis, quer fazer figura bonita neste primeiro dia, na volta ao colégio.

É difícil admitir, mas está com saudade da escola. E também anda com um friozinho na barriga, enquanto toma o café da manhã e a mãe e o pai fazem uns comentários que ele nem escuta – pura ansiedade.

Está ansioso para rever os colegas. Alguns deles até viu na praia, turma que se manteve nas peripécias e estripolias do verão, mas a maioria ficou distante: uns que foram para outras cidades, uns que foram visitar os avós, outros que não foram a lugar nenhum. Como será que estão todos? Carlinhos, Gustavo, Eric, Rodrigo. E duvido que o convencido do Fernando consiga amarrar os tênis deste jeito assim tão sensacional, pensa ele, enquanto olha os próprios pés - nervoso.

E está ansioso para rever a professora. Dona Carmen é uma linda, finge que é braba mas ajuda de tudo quanto é jeito, e sabe explicar como se as coisas sempre fossem fáceis. A professora – ela não gosta que chamem de profe, muito menos de tia – vez por outra até puxa umas brincadeiras, cantorias, desafinada que só ela. Saudade desta cantoria.

E está ansioso para usar o uniforme e o material escolar. O cheiro dos livros novos, dos cadernos, as cores dos lápis e das canetinhas, a mochila cheia de bolsos e mequetrefes que o pai havia comprado num mercadão na praia e que, com certeza, tinha tudo para ser a mais bonita de todas. Também para isso está ansioso.

E está ansioso para rever a própria escola. O prédio todo, as salas de aula, o pátio, a cantina e todas suas delícias, as canchas de futebol onde gastarão os recreios e os joelhos. Tudo isso, também está ansioso para ver.

Mas, mais do que tudo, está ansioso para rever Juliana. Tomara eles fiquem na mesma turma.


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