ELAS

Ela se chama Dilma, Yeda, Ana Amélia, Maria da Penha ou Benedita ou, e no dia oito de março recebe todas as flores do mundo, rosas, miosótis, camélias, margaridas, flores do campo, em ramalhetes de infinitos tipos e tamanhos, orquídeas raras e delicadas e que certamente não custaram barato, e os homens ao seu redor a enchem de loas e discursos e alguns lugares-comuns, sua competência isso, seu talento aquilo, sua sabedoria isso, sua paciência aquilo, e respeito respeito respeito e direitos iguais. Os filhos lhe trazem café da manhã na cama, igual ao dia das mães; os companheiros fazem reservas em restaurante, como se fosse o dia dos namorados. O chefe a elogia na frente de todos os outros, diz que ela merece todo o nosso respeito – ele enfatiza a palavra, solene e engravatado -, e então a presenteia com uma caixa de bombons finos, enquanto um colega faz a mesma piadinha secular de sempre, juntando chocolates à ameaça das balanças, e aproveita para sugerir que ela divida com todos o presente recém recebido. Todo mundo ri, ela também. Neste dia, ela recebe mensagens bacanas e modernas e lê nas redes sociais um monte de pequenos tratados, também bacanas e modernos. Todos falando em respeito, direitos, conquistas, tudo muito descolado – estamos em 2016.

Ela se chama Dilma, Yeda, Ana Amélia, Maria da Penha ou Benedita ou, e no dia nove de março, no dia quinze de janeiro, no dia vinte e um de dezembro (e no dia oito de março, também), sabe que o colega ao lado, que faz exatamente as mesmas coisas que ela, ganha um salário melhor e tem mais chances de ser promovido. Ela sabe que se vestir um shortinho ou saia curta na rua ou em qualquer outro lugar poderá parecer provocação para um ou outro e, se algo de pior acontecer, não faltará alguém que diga que a responsabilidade é dela mesma, onde já se viu, usando aquelas roupas provocantes, desavergonhadas. Ela sabe que, se for sozinha a um bar ou caminhar desacompanhada na rua depois de certa hora, corre o risco de ser chamada de qualquer coisa. Ela sabe que lhe darão cantadas exigindo que as receba como elogios. Ela sabe que, dona do seu próprio corpo, nem sempre é. Ela sabe que, se for gorda ou negra ou lésbica ou velha, poderá ouvir ainda mais. Ela sabe que a jornada tripla ainda existe e, quando chegar em casa, terá que pensar no cardápio da janta. Recebe agora estes presentes, estes mimos – mas ela sabe.

Ela se chama Dilma, Yeda, Ana Amélia, Maria da Penha ou Benedita ou, e é claro que adora receber flores e chocolates. Mas o que ela deseja, mesmo, é que todos os dias possam ser dias da mulher.


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