AMOR DE CARNAVAL

Eles haviam se conhecido no carnaval do ano passado, em Capão da Canoa, e pularam juntos todas as noites – ela em suas fantasias de odalisca e bailarina; ele, em seus arrevesados trajes de pirata improvisado. Ao final da folia, apaixonados, mal continham as lágrimas de uma saudade que já se avizinhava, porque sabiam que a distância deixaria impossível continuarem juntos: ele morava em Igrejinha e ela, em Uruguaiana.

Foi ela quem propôs: que ficassem livres o ano inteiro, que não se correspondessem para não aumentar a saudade, que não soubessem um do outro nos próximos meses – mas que se encontrassem neste mesmo lugar, às onze e meia em ponto, na primeira noite do carnaval seguinte. Ele quis protestar – ao menos, trocassem correspondência de vez em quando –, mas ela estava firme:

“É melhor assim. Dói menos.”

Despediram-se em choro, firmes na promessa mútua.

Mas um ano demora um ano inteiro a passar.

Nestes meses todos, por várias vezes ele esteve a ponto de descumprir a promessa – mas ela sequer lhe havia dado algum endereço ou telefone. Depois, no decorrer do tempo, aquela saudade doída dos primeiros dias foi se transformando numa espécie de nostalgia boa. Ele pensava nela com um carinho sem nome – o que estaria fazendo agora, estaria com alguém, pensaria nele? Mas não deixou de lado as festas, uma ou outra namorada que não deu certo, os planos incertos do futuro, a vida pura e simples. Jogo que segue, pensava, jogo que segue.

Isso, até a semana passada.

Quando decidiu voltar mesmo a Capão, a saudade e a angústia pareceram acordar de repente. Lembrava das noites todas do carnaval, o instante inequívoco em que ela fizera a proposta, o sorriso claro com que recebera o seu ´sim´ - e agora era tudo um sofrimento, uma incerteza: e se tudo não tivesse sido apenas brincadeira?

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É com o coração aos pulos, em descompasso com a velha marchinha que o conjunto está tocando, que ele olha para o relógio e, às onze e meia em ponto, vai até o lugar combinado.

Ela está lá.

“Gosto de gente que cumpre o combinado.” – ela ri, o mesmo sorriso do ano passado. Depois, sem outra palavra, o abraça e beija como se estivessem prometidos um ao outro.

Talvez estejam.


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