O ENDEREÇO

Rua Vargas Borges, 573.

Ele desdobra pela milésima vez o papelucho em que escreveu o endereço e que o acompanhou na viagem de ônibus como se fosse uma espécie de talismã, guardado num dos compartimentos da carteira sempre vazia. Nas dezoito horas que a viagem durou, buscava às vezes o bilhetinho e confirmava sua letra feia e insegura: o endereço da mãe seguia ali.

Há mas de vinte anos não via ninguém de sua família, há oito anos já não sabia nada da mãe. Nos primeiros anos em que saíra pelo mundo, tentando a vida, a felicidade e algo cujo nome na verdade nunca descobrira, ainda mandava e recebia notícias, dos endereços vagos e tantos por onde seus caminhos haviam errado. A mãe, contando das pequenas miudezas da família – a prima que havia casado, o tio que sofrera um derrame – e falando o tempo inteiro das saudades enormes que sentia. Ele, dando apenas uns relatos sem tempo ou lugar, esconderijos de incertezas, sem saber muito o que dizer e evitando a palavra ´saudade´ apenas para que ela não pesasse também sobre si. Depois, as cartas, os telefonemas, as mensagens foram rareando, ele pulando de lugar em lugar tentando encontrar o seu, até que pararam de vez. Um silêncio de an os inteiros, ele desaparecido em si mesmo, pulando de lugar a lugar, de país a país, sem se encontrar, tempo trazendo mais cansaço do que vida.

E quando este cansaço de tudo finalmente o venceu, achou que precisava voltar e rever aquilo que, à falta de melhor palavra, chamaria de suas raízes – a mãe, a prima que havia casado. Atravessou terras e águas, quilômetros de desassossego, o endereço guardado no papel porque já não confiava na memória. E a cidade, pensou, sua cidade já não seria a mesma.

Desceu do ônibus agora há pouco, maletinha austera na mão, e anda pela cidade natal como a descobri-la. Faz isso porque é como se a visse pela primeira vez, tantas mudanças nela e em seus próprios olhos, e também porque precisa demorar um pouco para sossegar as batidas descompassadas do coração que ainda não sabe bem porque voltou. Mas voltou – as raízes. A mãe.

Adivinha as ruas da cidade, ainda percebe alguns pontos de referência, e seu passos intranqüilos o levam à rua da mãe. É uma rua antiga, calçada com paralelepípedos que o fazem lembrar dos joelhos escalavrados da infância. Anda devagar, como a retardar seu próprio andor, e é num suor estranho que chega ao número escrito em seu papelucho.

Mas é um terreno vazio. Em meio a muita sujeira, o resto das paredes de sua antiga casa.


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