EM BOA COMPANHIA

Está ali, Eugênio, instalado na poltrona amarela que herdou da casa dos avós, saboreando o conforto do café preto e lendo um livro com o prazer tranqüilo que isso proporciona, quando o filho se aproxima. O garoto fica um tempo observando o pai – que, de tão absorto, num primeiro momento sequer o percebe.

Até que o moleque lhe toca o braço; faz isso com certa leveza, o rosto do pai está tão agradavelmente concentrado no que faz, que o menino talvez tenha um pouco de dúvida se deve retirá-lo dali.

“Oi, filho!” – Eugênio se surpreende. – “O que foi?”

“O que tu tá fazendo?” – pergunta o menino.

O pai aponta para o livro.

“Lendo” – diz ele, num sorriso.

O garoto fica uns segundos em silêncio, parece não saber bem o que dizer. Mas daí a pouco volta à carga:

“E tu acha bom?”

“Claro!” – responde Eugênio, enquanto deposita por instantes o livro sobre a perna. – “A gente aprende muita coisa lendo. Fica mais inteligente, mais esperto. Todo mundo que quiser ficar mais sabido tem que ler. E a gente também se diverte com as histórias. Histórias de todos os tipos. É como se fosse uma brincadeira. Eu adoro ler.”

O menino permanece novamente em silêncio por um tempinho, mas desta vez não há em seu semblante qualquer indecisão. Olha o pai com certa admiração nova. Depois, passos rápidos de quem sabe onde vai e o que vai fazer, sai da sala. Volta um pouquinho depois, livro colorido na mão, acomoda-se na poltrona amarela em frente à do pai e abre o exemplar sobre suas pernas.

Seguem em silêncio, companheiros, cada qual com o prazer de seu livro. Eugênio olha para o filho e sorri.

Pouco importa que o livro do pequeno – que ainda não saber ler - esteja de cabeça para baixo.


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