PÁSCOA

Eu era pequeno, tinha quatro anos, e a Páscoa começava muito antes do domingo. Ela já começava a acontecer quando minha mãe trazia as cascas de ovo de galinha para que as pintássemos com tintas coloridas e, no esconderijo da noite, o coelhinho as enchesse de amendoim com açúcar. Começava quando meu pai voltava do trabalho e, ante meus olhos de maravilha, tirava do bolso do casaco um chocolate ou um bombom que o coelho havia deixado no pátio em frente de nossa casa. Ela começava quando meus pais me diziam para enfeitar o ninho, enchê-lo de palha, barba de pau e papel picado, para que o coelho pudesse enchê-lo de chocolates (eu colocava poucos enfeites, para que sobrasse mais espaço aos ovos que ele traria). Começava até quando minha mãe me convidava para pintarmos aqueles ovos duros de galinha, tão sem graça, e que eu torcia que o coelho substituísse por chocolates.

Mas, mais que tudo, a Páscoa começava quando encontrávamos no pátio em frente de casa, brancas como talco recém espalhado, as mágicas pegadas do coelho.

Eu ficava espantado: como as pegadas sempre apareciam sem que eu nunca conseguisse enxergá-lo? Mas meu pai me explicava, convincente, que o coelhinho era muito, muito rápido, precisava dar conta de passar por todas as casas e que, por isso, era impossível vê-lo. Talvez algum dia - eu pensava, esperançoso.

Mas fui crescendo e a Páscoa diminuindo em mim. A infância desaparecendo em distâncias e a adultez chegando com todas suas seriedades. As preocupações, as correrias da vida, o rosto rijo e os sorrisos poucos, estes cabelos que se agrisalham antes do tempo, a luta cotidiana com pouco espaço à luz, as pequenas decepções e desencantos, os esquecimentos, as paredes dos dias: o coelhinho da Páscoa, cada vez mais distante, era uma fantasia de criança – ele nunca havia aparecido para mim.

Por isso, agora me intrigam tanto estas pegadas brancas que apareceram, na madrugada, no pátio em frente à minha casa.


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