O BILHETE – II

Osmar pegou o bilhete que Nilda lhe estendera e não soube o que pensar. A esposa apenas lhe passara o papelucho, sem maiores comentários, apenas dizendo `olha só o que colocaram debaixo da porta da nossa casa´ e esperando que ele lhe desse pronta resposta.

Mas não havia pronta resposta a dar.

O bilhete anônimo o acusava de ser um safado mulherengo, espécie de Casanova suburbano, perseguidor de todo e qualquer rabo de saia – coisa que Osmar não era e nem nunca fora. É claro que, vez por outra, espichava um olho aqui ou ali, à passagem de uma ou outra cabrocha, talvez até fizesse algum comentário, mas o fato é que, casado com Nilda há tantos anos, nunca havia – como dizem – pulado a cerca. Trabalho, casa, uma ou outra happy hour, sinuquinha com os amigos de quando em vez – e, é claro, o jogo de futebol de todas as quartas-feiras à noite, que era sagrado. Osmar não jogava nada – nunca jogou -, mas, apaixonado por futebol, era quem menos faltava. (Nilda não gostava muito, desdenhava um pouco dos tais jogos de futebol; Osmar fingia que não era com ele.)

Mas o bilhete – e a esposa à sua frente, olhos severos exigindo resposta.

De onde saíra e quem o escrevera? Mais que isso: de que planeta tirara as observações que continha? A pessoa que o deixara ali, embaixo da porta, certamente tinha seguido outro Osmar, Carlitos, Everaldo, Antonio Carlos, sei lá o quê – não ele.

Mas, de repente, repassando os olhos no bilhete e pensando na resposta que lhe reafirmasse a inocência verdadeira, Osmar sentiu algo diferente: o fato é que o papelzinho anônimo o colocava num tipo de condição nova, do homem perigoso, da águia pronta a apanhar sua presa, o conquistador, estas coisas todas que nunca fora mas que, de repente, Nilda agora talvez começava a achar que ele era. Em suma, pensou ele, um homem a ser bem cuidado pela esposa – e riu.

“Este bilhete não tem nada a ver, nunca fiz isso daí.” – respondeu ele, finalmente. Mas seus olhos cruéis fizeram questão de dizer à mulher que não era bem assim.


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