O BILHETE – III

Nilda segurou com certa apreensão o bilhete anônimo que o marido lhe devolvia quase sem palavras, e que o acusava de ser um Don Juan de poucos talentos e muitas tentativas. Estudou com atenção disfarçada os gestos de Osmar, a entonação de sua voz (será que tremia?), o possível suor involuntário, as respostas que poderiam se adivinhar por trás de suas parcas palavras, buscando encontrar nos esconderijos do marido alguma confissão, mas não. Nada parecia estar acontecendo, e o quase silêncio do marido lhe parecia mais de tranqüilidade do que qualquer outra coisa.

“Este bilhete não tem nada a ver, nunca fiz isso daí.” – respondera ele, apenas. E não parecia mesmo haver acusado qualquer golpe. Então a correria atrás dos rabos de saia, o andar de fauno denunciado no bilhete – seria tudo aquilo apenas uma invenção? Uma especulação?

A mulher esperou que o marido respondesse algo além, mas ele apenas sacudiu os ombros e deu a ela algo semelhante a um sorriso, como se dissesse que não precisava provar nada: a inocência estava ali. Se houvesse alguma culpa, Nilda que a provasse.

Ficaram em silêncio durante uns segundos, o tempo suficiente para saberem – mesmo sem perceber – que algo havia mudado, que certa parede invisível se instalara entre os dois, e que daí em diante os movimentos de um e de outro teriam sempre, de alguma forma, a guia daquele bilhete.

A desconfiança.

Nos próximos dias, Nilda ainda estudaria os gestos do marido, seus humores e reações, as roupas que vestiria para o escritório, a hora em que chegasse do futebol, algum gaguejar, certa resposta não dada, seus suores e respiros. Em algum momento, mais desarmado, talvez Osmar entregasse o jogo, e Nilda descobriria o quanto havia de verdade naquele papelucho.

Papelucho que ela amassou, rasgou em uns tantos pedaços e jogou no lixo.

Assim não correria o risco de Osmar descobrir, qualquer dia desses, que quem havia escrito o bilhete era ela.


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