A ESCURIDÃO

Desveste então o capuz malcheiroso que lhe haviam colocado, mas é a mesma coisa que não tirá-lo: a escuridão segue ali, intensa e assustadora, como se os seus olhos estivessem proibidos de abrir. Deixa o capuz cair ao chão, logo ao seu lado, e sequer este trapo nauseante atirado aos pés ele consegue enxergar, tamanha a treva.

A escuridão.

Não sabe se é dia ou noite, não tem ideia de onde está. E como não enxerga nada ao redor, o lugar onde o deixaram pode ser um descampado, um corredor, o alto de um edifício, o porão, qualquer masmorra - qualquer. Estica os braços, buscando algo, mas não encontra nada. E o frio que sente, o frio! Não é um frio comum, invernal e esperado, mas outro, de um jeito diverso, estranho e triste, que lhe atravessa os casacos e parece vencer o tempo; um frio que lhe vem de dentro, do rumor gélido do sangue, da parte funda da alma.

A escuridão, o frio.

E junto com a escuridão e o frio, também há o medo. Porque não sabe o que está ao seu lado, atrás ou à frente – só o que sabe é aquele negror gelado que o cerca, o desamparo e a incerteza. Quando ergueu o braço, nada encontrou. Indefeso, ele se pergunta: o que pode estar ali: Quem pode estar ali? O desconhecido que o espreita e talvez o assalte nesta bruma cega.

A escuridão, o frio, o medo.

Mas terá que se mexer. E dá o primeiro passo.

Porque não vai ficar nesta escuridão em que o atiraram.


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