WALDISNEY

“Bom dia. Então você é o novo assistente que o pessoal do RH me mandou para entrevistar? Pois bem, se você for aprovado, eu vou ser o seu chefe.” – e, estendendo a mão ao candidato – “Prazer, Waldisney. Com ´w´ e ´y´ no final.”

“Prazer, seu Waldisney.”

Os dois mantiveram um silêncio de alguns segundos, em suspenso, até que Waldisney resolveu questionar.

“E então? Não vai rir? Perguntar por quê?”

“Perdão?”... – o candidato pareceu não entender.

“Do meu nome, rapaz! Waldisney! Todo mundo cai na gargalhada quando eu falo! Pode rir também, à vontade!...”

“Desculpa, eu não tenho vontade de rir... Está certo que é um nome estranho, mas...”

“Estranho?! Só estranho?!” – e Waldisney já parecia exaltar-se. – “Não existe no mundo um nome mais ridículo do que este!... Ridículo! Meu pai era fã do Mickey, do Pateta, do Pluto, do Pato Donald, aqueles personagens do Walt Disney, e quando eu nasci resolveu homenagear o cara! Homenageou o cara e esculhambou com a minha vida! Desde garoto, é uma risada só! Até pra conseguir namorada é difícil: chego todo feliz e pimba – é só até a hora de dizer o nome para a mulherada começar a rir e não parar mais. Vou te dizer, cara, é jogo duro! Jogo muito duro!” – e Waldisney bafejava enquanto repetia as palavras, nervoso; talvez estivesse cansado de chamar-se assim.

“Pois é...”

“Pois é?? Só isso?? Garanto que tá louco para rir e só fica aguentando porque precisa do emprego! Só por isso!” – ele parou um instante, depois continuou – “Mas eu vou te dizer uma coisa, rapaz: este emprego não vai ser teu. Aqui ninguém precisa de puxa-saco, nem de gente falsa. Ninguém precisa de um funcionário que se dobra só para agradar o chefe!...”

“Mas, seu Waldisney!...”

“Não tem mas, nem meio mas! Não riu, não perguntou a razão deste nome bagaceiro – perdeu a chance e o emprego! Pode ir passando! Nós vamos contratar uma pessoa que caia na gargalhada assim que eu disser o meu nome. Alguém autêntico!”

“Desculpa, seu Waldisney! Me dá uma chance! Eu juro que achei o seu nome engraçado!...”

“Agora não dá mais, meu! Passou, vaza! E passar bem, porque temos mais o que fazer nesta empresa.” – e sem outra palavra,. deixou a sala em que entrevistaria o possível empregado.

Deolindo levantou-se ainda atônito com a situação, sem saber bem o que fazer. Tinha esperado tanto por esta entrevista e agora ela se esvaía em nada. Paciência – seguia seu périplo em busca do emprego.

Mas quando chegasse em casa, à noite, ia rasgar toda a sua coleção de Tio Patinhas.


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