A MOÇA DO 20º ANDAR

Acontece seguido: ele é um dos primeiros a chegar no prédio, pela manhã, junto com a moça que trabalha num dos escritórios do vigésimo andar - como assistente, parece. Chegam cedíssimo, ambos: ele mora longe, ela talvez tenha o mesmo motivo.

Enquanto esperam o elevador, ele a cumprimenta com certa solenidade, e ela devolve o cumprimento com um sorriso que serviria para iluminar a cidade inteira. E mais ele não consegue dizer, tímido invencível que é – mas pensa, imagina, sonha tanto: eles abraçados numa praia deserta, dançando qualquer música lenta, caminhando de mãos dadas em Paris, corpos felizes sob lençóis de algodão. Porque é linda, tão linda, a garota do vigésimo andar; de algum modo, sabe que está apaixonado – e junta forças para dizer algo, um comentário inteligente, algo que o permita, quem sabe, convidá-la algum dia a um café, quem sabe algo mais. Ele quer se encorajar, dizer mais que o cumprimento, vencer o receio.

Mas, no quarto andar, como de costume, sobe aquele senhor de cabelos brancos, que saúda a ambos e parece ser especialista em comentários genéricos, vaticinando que deve chover ou que este inverno vai ser frio. Assuntos assim, sempre, e que demandam apenas respostas também genéricas, concordâncias que só precisam durar um instante.

E depois ficam os três (ninguém mais entra no elevador, àquela hora) naquele silêncio quase incomodado, olhando os marcadores luminosos dos andares: ele, o tímido; a garota de seus sonhos, tão próxima; e o senhor que, apenas chegando e com sua simpatia protocolar, corta pela raiz os seus pequenos planos de ousadia. A moça em seu mundo próprio, o senhor com cara de paisagem tranquila, ele com seu ar tristonho e de desamparo.

No resto da viagem, olhos de disfarce, ele tenta observar a garota, que desce no vigésimo andar com um aceno e um sorriso que talvez sejam promessas, convites. Ela olha para ele, não para o homem do tempo.

Um dia, quando o senhor do quarto andar se atrasar e os deixar sozinhos nesta viagem de vinte andares, ele vai tomar coragem.


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