A IMAGEM QUE O ESPELHO ME DEVOLVE

Então, de repente, passo em frente ao espelho e, por um instante, não parece ser meu o reflexo que ele me devolve. De quem é (quem é?) aquela sombra que parece estar à frente da minha imagem? Volto, e parte do susto se desfaz: sou eu mesmo.

Eu mesmo. Mas, de algum modo, diferente.

E resolvo dar a mim o tempo de me observar, ver o que o tempo anda fazendo comigo e onde estará a diferença que, ainda há pouco e quase como um relance, percebi. Aproximo o rosto do espelho e sei que esta diferença não está nas ruguinhas que vagarosamente vão crescendo em meu rosto e, quais pequenos mapas do tempo, marcam relogiosamente a passagem branda dos meus dias. Não, não são elas. Também não é esta flacidez da pele, a gravidade cotidiana e crescente que me aproxima do chão e torna um pouco mais pesados os meus passos. E não são estes fios acinzentados que se multiplicam, ralos e tímidos, no topo de minha cabeça e que, pouco a pouco, abandonam as entradas da testa para morarem, desgrenhados e tristes, nos dentes da escova de cabelos.

Não, não é nada disso.

Então observo a mim mesmo com um pouco mais de força e quase colo o rosto ao espelho, pensando que o vigor dos meus olhos já não é o mesmo. E então me dou conta de onde vive a diferença.

No olhar.

Não nos olhos. No olhar.

Há certa dureza nova neste meu olhar, algo que foi nascendo aos poucos e se instalando com um peso que vai além do necessário. O tempo, as vicissitudes, as preocupações, os compromissos, as obrigações, a adultez, os dias engravatados – tudo isso, dia após dia e sem que eu percebesse, foi criando esta espécie de névoa que mora dentro dos meus olhos e faz com que o meu olhar tenha esta seriedade sem brilho que agora, de repente, me incomoda. Um olhar que, ao mesmo tempo em que enxerga um cachorrinho brincando, pensa na exorbitância da conta da luz. É amargo perceber isso: meus olhos seguem castanhos claros, mas olham diferente.

Eu queria ter de volta um pouco de inocência no olhar.


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