OS POEMAS DE AMOR

Estavam, o Poeta e seu Amigo, tomando uma solitária cerveja no boteco em que costumavam encaminhar as soluções para os problemas do Universo, quando o primeiro declarou:

“Agora só vou mais escrever poemas de amor.”

Não que alguém prestasse maior atenção aos escritos do Poeta, ele que escrevia sempre uns textos mais duros, ácidos, críticos. Amor, agora, àquela altura? Mas o Amigo, solidário, entendeu que deveria dar à novidade alguma relevância.

“Mas por quê?”

O Poeta tomou um gole largo de cerveja, como se preparasse resposta grandiloqüente, mas apenas disse:

“Decidi.” – e nada além.

“Mas e a crítica de sempre? E o valor social da poesia?”

“O amor é a maior revolução que existe.”

O Amigo gostou da resposta – o Poeta sempre tinha estas sacadas rápidas -, mas achou que o assunto talvez rendesse um pouco mais:

“Sim, mas e o resto?”

O Poeta fez um gesto amplo.

“Todos os assuntos cabem dentro do amor.” – vaticinou ele, como se sua frase houvesse descoberto um mundo.

O Amigo se impressionou novamente, impactado com a certeza simples do Poeta, e achou que não estava suficientemente preparado para manter discussão maior sobre o assunto: o outro estava mesmo muito inspirado, rebateria quaisquer de seus argumentos. Então pediu outra cerveja e começou a pensar na solução dos problemas do mundo.

Melhor assim, pensou o Poeta, já um pouco arrependido da declaração do início. Que mudassem de assunto, que falassem de qualquer coisa, menos dos poemas de amor que agora começaria a escrever.

Porque senão, em algum momento, teria que confessar que, pela primeira vez em sua vida, estava inteiramente apaixonado.


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