A VIAGEM

Pedro entrou no elevador, apertou o botão ´desce” e acomodou-se num canto para enfrentar os quinze andares que o separavam do térreo.

E então percebeu o livro, cuidadosamente deitado no outro canto.

Pegou o volume, a ver se existia nele alguma pista ou nome do distraído que ali o esquecera, mas nada. Havia na primeira página apenas um recado: “quem pegar este livro, que aproveite bem a sua leitura e passe adiante.”

Era um livro de poesias. Manoel de Barros, o nome do autor. Abriu-o a esmo, e lá estava: “A maior riqueza do homem / é a sua incompletude. / Nesse ponto sou abastado. / Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. / Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, / que puxa válvulas, que olha o relógio, / que compra pão às 6 horas da tarde, / que vai lá fora, que aponta lápis, / que vê a uva etc. etc. / Perdoai / Mas eu preciso ser Outros.”

Releu o poema e percebeu que aquilo o incomodava. Mas era um incômodo bom, necessário, tremor delicado em seus ombros, palavras a lembrá-lo o quanto não era outro. E o quanto era preciso, também, ser outro - outros -, ir além de apenas apontar o lápis, ver a uva, olhar o relógio e comprar pão às seis horas da tarde. Não que não fosse bom comprar o pão às seis da tarde – mas às vezes era necessário ir mais adiante. E mais acima, talvez.

Nem percebeu que o elevador enchera de gente (outros) e chegara ao térreo. Todos desceram e Pedro permaneceu lendo as páginas de seu novo presente (aproveitar a leitura e depois passá-lo à frente). Uma senhora que entrava perguntou-lhe, com um sorriso:

“Vai descer, moço?”

Pedro saiu por instantes da leitura, espécie de susto bom, e saiu do elevador. A senhora então adendou, ainda sorrindo:

“Terminou a viagem...”

Pedro retribuiu o sorriso, mas a mulher estava enganada. Olhou para o livro – a viagem recém começava.


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