DÚVIDA

Quando são, sei lá, oito e meia da noite, a mesa de trabalho ainda cheia e ele atarantado com todos os números e relatórios que precisa entregar até a primeira hora de amanhã, decide ligar para a esposa. Quer avisá-la que chegará tarde em casa, trabalho trabalho trabalho e por aí vai.
Ela escuta as explicações detalhadas dele – o relatório, os papeis, a chatice toda – e depois concorda:
“Então tá.” – diz ela, apenas.
E então ele se incomoda com aquela concordância tão clara, tão fácil da mulher.
“Mas é verdade, amor! Tou cheio de trabalho no escritório!”
“Sim, tudo bem...” – ela concorda, novamente. – “Já te entendi.” – e nada mais.
“Sim, mas este tom de voz...”
“O que é que tem?” – ela pergunta.
“Sei lá, parece que não está acreditando no que eu falo...”
“Mas eu não disse nada!...” - ela retruca, surpresa.
“Pois por isso mesmo! Nenhuma pergunta, nenhuma reclamação, nada!...”
“Mas o que é que tu querias? Que eu ficasse te enchendo de perguntas?” – ela ri (mas um pouco indignada).
“É, algo assim...”
“Tá, então eu pergunto... “ – e ela ri novamente – “Mas o que tu queres que eu pergunte?”
Ele permanece uns segundos em silêncio, parece decepcionado com o descaso quase estranho da mulher. Depois responde, a voz derrotada:
“Nada, deixa assim...Esquece...”
Ela então gargalha do outro lado da linha e dá a ordem, sempre rindo:
“Então vai trabalhar logo e deixa de ser chato!”
Ambos desligam o telefone e ele fica um tempo sem saber o que pensar, um pouco doído com a indiferença. Depois, recomeça a trabalhar – precisa mesmo estar com tudo pronto amanhã de manhã. A mulher que o espere: chegará em casa bem mais tarde.
Mas será que ela está em casa? – pensa ele, de repente.


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