O CÃO AZUL

O cachorro de Luizinho era uma festa só. Branquinho, mancha negra na cauda quase inexistente, brincava o tempo inteiro com o garoto como se fossem – vá lá! – irmãos. O viralata era ainda meio filhotão, estabanado, comia como se fosse sempre a última refeição da vida e deixava um fio molhado pela casa em cada vez que tomasse água. Uma alegria, o tempo inteiro.

Mas teve o dia em que o cachorro do Luizinho desapareceu.

A família toda em tristezas, Luizinho em desesperos – a maior desgraça em seus seis anos de vida.

Procura aqui e ali, anúncio no jornal, cartazetes nos postes da cidade, conversas por todos os lados, um monte de gente tentando auxiliar – mas o cãozinho não aparecia.

Uma semana, duas, três - a família tentando sair da tristeza, Luizinho cada vez mais mergulhado em desespero.

Até que, certa terça-feira, trazido pelas mãos de um anjo sem nome, o cachorro reapareceu.

Mas voltou pintado de azul.

Pintado de azul! Sabe-se lá por que razão, alguém havia tingido o cachorrinho com tintura para cabelos.

A família e o cão se desmancharam em alegrias, mas Luizinho ficou meio cabreiro: o seu cachorro era branco, não azul. Parecia não ser a mesma coisa, o mesmo animal. E Luizinho recolheu-se um pouco em sua estranheza, arredio àquilo que não sabia como pensar.

Mas o cãozinho não deu bola. Azul, brincou como quando era branco. Azul, sacudiu o rabo como quando era branco. Azul, fez festa como quando era branco. Azul, acordou Luizinho pela manhã como quando era branco. Azul, derrubou as coisas da mesinha de centro como quando era branco. Azul, bebeu litros e comeu toneladas como quando era branco. Azul, fez xixi e cocô no pátio como quando era branco. Azul, tomou xingão como quando era branco. Azul, tão querido e faceiro como quando era branco.

Azul, igualzinho como quando era branco.

E, aos poucos, Luizinho foi reaceitando o cachorro. Agora, estão ali no pátio, felizes, correndo um com o outro.

Bom, pensam os pais. Assim, Luizinho vai percebendo desde cedo que, seja cachorro ou seja gente, a cor da pele ou do pelo pouco deve importar.


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