A SERENATA

O pai, meio sem querer, escutou quando Otavinho falava com um amigo e contava a ele, num semisegredo, de sua timidez em conquistar Juliana. A garota mais bonita do colégio, a linda das lindas, e que tinha a delicadeza de não rir quando Otavinho, vermelho, gaguejava bobagens ao seu lado.

Quando o amigo se foi, o pai explicou a Otavinho que escutara a conversa. Depois que o filho terminou o breve discurso indignado de privacidade invadida, o pai sugeriu:

“Faz uma serenata pra ela.”

Serenata, o que é isso? – perguntou-se o garoto, pensando nos cem anos que o velho deveria ter.

O pai explicou o que era, disse que muitos namorados haviam conquistado suas namoradas daquele jeito, que era uma coisa linda, romântica, e que certamente Juliana iria gostar.

Otavinho fez um gesto de desdém (o pai tinha, sim, cem anos).

“Bem capaz que eu vou fazer este fiasco!...”

“Não é fiasco, é bonito.” – redargüiu o pai. – “Convida uns amigos pra te ajudarem e...”

“Mas aí é que nunca!” – precisou rir Otavinho, o pai decerto estava doido. – “Imagina convidar os amigos pra me verem passar vergonha...Nunca mais param de me gozar lá no colégio!”

E terminou o assunto, condescendente, pai de seu pai (gracias, Fabrício):

“Valeu a força, mas vamos deixar assim. O tempo agora é outro.”
****

Em casa, sozinha no quarto e escutando música, Juliana pensa no quão iguais andam os garotos hoje em dia. Ficar é fácil, pensa ela – difícil é permanecer. Por isso, tão raro se interessar – todos a mesma coisa, sempre. Ela poderia – facilmente - se apaixonar por alguém que soubesse ser diferente, que lhe recitasse um poema, que lhe falasse coisas bonitas e suaves, que lhe abrisse a porta ao passar, que lhe desse chocolates sem motivo, que lhe trouxesse flores de vez em quando.

Ou, quem sabe, que lhe fizesse uma serenata.


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