NO CAFÉ

Olho o relógio e percebo que passa bastante da meia noite. Quase uma da manhã, na verdade. Peço outro conhaque ao garçom e ele me faz um gesto rápido com a mão: já está vindo. Devolvo a ele um sinal de positivo: não há pressa.

Enquanto espero, observo o homem que, sentado sozinho no outro lado do salão, ainda há pouco também bebia o seu conhaque. Terá os seus cinqüenta anos, é gordo e corpulento e mesmo daqui de longe se percebe o desmazelo de suas roupas, a barba descuidada. Antes olhava sem maior atenção o programa de esportes que televisão do bar, muda, lhe oferecia. Mas agora não: daqui de longe, consigo perceber que ele dorme.

O copo de conhaque pela metade à sua frente, o corpanzil mal equilibrado na cadeira fina e sem braços, queixo apoiado na papada fofa, o homem ressona um pouco alto, meio desavergonhadamente.
E penso: este homem dormirá até que o garçom venha avisá-lo que é preciso ir embora, que o bar está fechando. Aí, acordará num susto, limpará a baba distraída de seu queixo, beberá de uma vez só os últimos goles do conhaque e caminhará sem vontade para casa – ou para a pensão, o quartinho de hotel.

Este homem que agora dorme, penso eu, não tem ninguém que o espere. Irá para a casa, solitário como sempre, e provavelmente dormirá sem se banhar, um sono sujo, a cama há tempo com os mesmos lençóis. Ninguém que se preocupe por ele.

Ninguém, penso eu.

Mas logo interrompo o meu pensamento, deixo o homem à sua solidão: é que o garçom traz o meu novo conhaque, deposita-a amigavelmente sobre a mesa.

Tomo um gole e olho sem atenção o programa esportivo na TV.
Bebo sem pressa. Afinal, ninguém me espera.

E talvez daqui a pouco eu durma.


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