A CIDADE EM OLHOS DE PRESENTE

A cidade deve ser vista sempre com olhos novos. Mais: olhos que queiram prestar atenção. É preciso interromper a corrida apressada do cotidiano e emprestar a ela o olhar carinhoso que merece sem pedir, para que as belezas então se revelem. Aos poucos, sutis – grandes e pequenas, óbvias ou surpreendentes.

O mistério novo de uma rua desconhecida, a fronde poderosa do arvoredo acariciando a placidez do banco da praça, o casal que há uma vida inteira anda de mãos dadas num silêncio leve, o grito iluminado da criança cuja alegria espanta as pombas do chafariz, o brilho novo da vitrine, a imponência simbólica dos monumentos, o burburinho nervoso que exala das avenidas do centro, o homem que lê descansadamente o jornal ao sol, o aroma que se desprende de uma alameda no cheio da primavera, a beleza sempre nova das casas antigas, a densa delícia do sorvete com leite e frutas, o brilho das peles, um céu enorme e desabrido, a risada dos clientes sentados no bar que há décadas homenageia a lua e onde se contam avenidas de histórias, a concretude colorida dos prédios novos, a geometria simples das escadarias, a suavidade curva das ladeiras que se cruzam em subires e desceres, a moça que espera o próximo ônibus ou o namorado, o namorado que espera o ônibus da namorada, a magnitude tranquila dos templos onde repousam em fé as pegadas sempre rápidas das gentes, a exatidão do sapato recém colocado na caixa – tudo se percebe quando a cidade é verdadeiramente olhada.

Porque a precisão do olhar faz mais do que olhar. Atenta aos ângulos que desejam ser vistos, esta nova mirada também cria, destaca, inventa. Quando descobre um detalhe, antes inexistente aos passos apressados – a maçaneta de uma porta centenária, miçangas penduradas na barraquinha ambulante, o calçamento pisado pelos pés que construíram a história, as cores todas da feira de verduras -, faz com que este conquiste outra relevância, certo fulgor maior, e se abra aí nova beleza. Transformam-se ambos: quem olha e quem é olhado.

E assim se descobre a cidade.

E assim a cidade se descobre.


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