RECEITA PARA SARAU

Pegue um bando grande de bons doidos e doidas. Para ampliar o sabor e a fim de melhor temperar, é recomendável que sejam de vários tipos e tamanhos: doidos alegres, varridos, circunspectos ou reflexivos, doidos com jeito de palhaço ou com cara de advogado, expansivos, doidos simples. Quanto mais tipos, melhor.

(Tendo estes bons doidos e doidas à mão, já se tem quase garantido o sucesso da receita.)

Misture os doidos e doidas com certo cuidado e alguma leveza. Mas nem sempre: às vezes, é necessária alguma força na mistura. Varie, então. Meta braço em alguns momentos, descanse um pouco em outros.

(Na receita original, mais antiga, os doidos e doidas eram misturados de uma vez só. Mas não é o melhor: o sabor varia pouco e aparece menos.)

Os temperos serão diversos. Além daqueles temperos básicos - como suspense, emoção e amor -, não tenha medo de ousar. Coloque aí neste caldeirão um monte de páginas de livros vários, poemas esquecidos, poemas nunca esquecidos, folhas dispersas, grafites da memória, a própria memória, melodias e instrumentos, risadas, sorrisos, lágrimas e suspiros.

E – fundamental! - não esqueça de colocar alma, também. Sem este ingrediente, a receita não dá certo. Muita alma na receita.

O sarau é um prato quente. Mas sirva como quiser.

A receita pode alimentar uma ou duas pessoas. Mas também pode alimentar duas mil. Ou mais.

E o bom é que alimenta sempre.


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