ELE NÃO CHOROU

Ele não chorou quando o médico, com a tranquilidade profissional possível, estendeu-lhe os exames e deu o diagnóstico. O chão faltou por uns instantes e seus olhos se encheram de sombra, mas permaneceram secos.

Não chorou quando, logo depois, saiu à rua e deu-se conta com seriedade, pela primeira na vida, que as belezas dos dias não eram para sempre e poderiam, daqui a pouco, estar se despedindo dele. Em meio ao alarido das gentes e do rugido dos carros, percebeu melhor as cores da cidade e conseguiu escutar, vindo de algum lugar talvez distante, o cantar longínquo de um passarinho – e isso quase o alegrou.

Não chorou quando decidiu contar logo a notícia à mulher e à filha, sem demoras maiores e jogando no ar e no discurso todas as esperanças possíveis, falando quase em sorrisos: não havia ali, naquele vaticínio médico, qualquer sentença definitiva de morte, mas apenas a certeza de um longo tratamento. Sim, seria doloroso, seria sofrido, as privações a enfrentar, o cansaço, os pelos do corpo caindo, a careca. Mas iria passar, vaticinou ele.

Não chorou quando a mulher e a filha começaram a chorar.

Não chorou quando a filha levantou-se de repente e deu-lhe um abraço como há tempos não se davam, nem depois, quando ela – também de repente – saltou deste abraço e correu ao banheiro. Deixa a ela este tempo, disse ele à mulher.

Não chorou enquanto a mulher apenas se mantinha ao seu lado, acariciando de leve o seu braço, quase sem perceber, e como fazia desde que há vinte anos tinham se conhecido.

Não chorou em nenhuma destas vezes.

Só chorou quando a filha reapareceu do banheiro, linda e fulgurante, os olhos secos da valentia, tesoura ainda na mão e a cabeça inteiramente raspada.

Estamos nisso juntos, ela disse.



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