ELE NÃO CHOROU

Ele não chorou quando o médico, com a tranquilidade profissional possível, estendeu-lhe os exames e deu o diagnóstico. O chão faltou por uns instantes e seus olhos se encheram de sombra, mas permaneceram secos.

Não chorou quando, logo depois, saiu à rua e deu-se conta com seriedade, pela primeira na vida, que as belezas dos dias não eram para sempre e poderiam, daqui a pouco, estar se despedindo dele. Em meio ao alarido das gentes e do rugido dos carros, percebeu melhor as cores da cidade e conseguiu escutar, vindo de algum lugar talvez distante, o cantar longínquo de um passarinho – e isso quase o alegrou.

Não chorou quando decidiu contar logo a notícia à mulher e à filha, sem demoras maiores e jogando no ar e no discurso todas as esperanças possíveis, falando quase em sorrisos: não havia ali, naquele vaticínio médico, qualquer sentença definitiva de morte, mas apenas a certeza de um longo tratamento. Sim, seria doloroso, seria sofrido, as privações a enfrentar, o cansaço, os pelos do corpo caindo, a careca. Mas iria passar, vaticinou ele.

Não chorou quando a mulher e a filha começaram a chorar.

Não chorou quando a filha levantou-se de repente e deu-lhe um abraço como há tempos não se davam, nem depois, quando ela – também de repente – saltou deste abraço e correu ao banheiro. Deixa a ela este tempo, disse ele à mulher.

Não chorou enquanto a mulher apenas se mantinha ao seu lado, acariciando de leve o seu braço, quase sem perceber, e como fazia desde que há vinte anos tinham se conhecido.

Não chorou em nenhuma destas vezes.

Só chorou quando a filha reapareceu do banheiro, linda e fulgurante, os olhos secos da valentia, tesoura ainda na mão e a cabeça inteiramente raspada.

Estamos nisso juntos, ela disse.



Outros Contos


ELE NÃO SABE

WALDISNEY

CRIANÇA TEM QUE SER FELIZ

AS ESCOLHAS

AMOR DE CARNAVAL

O GURI DALTÔNICO CHEGA AO CÉU

O SENTIDO DA VIDA

ESTÁTUAS VIVAS

NO CAFÉ

O CÃO AZUL

AS FELICIDADES PEQUENAS

PÁSCOA

SAPATOS NOVOS

MAX, QUE TRATA BEM AS PALAVRAS

O CELULAR DO MEU FILHO

NO CAFÉ

VINTE E DOIS

PRIMEIRA PÁSCOA

A GENTE DANÇA

O ABRAÇO, AI, O ABRAÇO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais