QUANDO VOCÊ ME DEIXOU, MEU BEM

Quando cheguei em casa e li o teu bilhete, a letra fria sobre a mesa da sala, quase desfaleci. Não soube o que fazer e nem o que pensar, mas achei que me faltava o mundo naquela hora – os tempos todos que passamos juntos, a vida (a vida que eu vivia contigo e que era, isso sim, a minha vida), os meus planos de alegria – tudo havia ido embora contigo e desaparecia naquele bilhete. E eu descobri comigo mesma, naquele instante que não passava, que tinha duas escolhas difíceis: morrer ali ou seguir adiante.

E não morri.

Ah, eu não deveria te dizer isso para te pensares mais do que verdadeiramente és, mas é quase uma alegria, hoje, te confessar sem tremer a voz que os primeiros tempos foram quase invencíveis. Eu te enxergava em todos os meus movimentos, faltava sempre o teu braço a amparar o meu, meus olhos enxergavam só tristezas.

Mas o tempo, querido, o tempo também é remédio.

E então, aos poucos, fui me percebendo mais viva. Para não morrer (morrer-me), precisei, é claro, me reconstruir com tua partida. Na falta de teus passos segurando os meus, os meus precisaram ser mais firmes. Quando teu braço faltou e não tive mais o teu ombro onde apoiar meu choro, precisei aprender a chorar sozinha e a secar os olhos. E com os olhos secos, me vi mais luminosa, dona de certa beleza indescoberta e que talvez estivesse adormecida ao teu lado. Uma beleza não física, diferente de todas as outras e que talvez, à falta de melhor palavra, fosse mais conveniente chamar de coragem. E com esta beleza nova recomecei a andar, me refiz, e me pareço mais bela em todos os meus passos. Ando mais, ando melhor, meus olhos me veem. As tristezas que eles enxergavam já não vivem mais em mim. E preciso te dizer, usando a maldade linda da letra do Chico Buarque (de quem pouco gostavas), ´que tantos homens me amaram bem mais e melhor que você”.

Sou outra e melhor, graças a ti.

Ai, não sabes o quanto te agradeço por teres me deixado.


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