A CASA DA PRAÇA

A casa aquela ficava no meio de uma praça antiga da cidade, e a verdade é que estava bem escangalhada. Abandonada há anos, andava com as paredes prontas para cair e o teto caindo mesmo, as janelas frouxas e quebradas, as portas pedindo aposentadoria, uma multidão de bichos e bichinhos de todos os tipos e fedores.

Mas a casa tinha algo, não sei bem como explicar, que parecia falar, dizer que não podia ser assim. Que ela merecia mais que aquilo

E então um bando de artistas que andava por ali,vagando firmes e felizes em suas obras pela praça, decidiu que a casa bem que podia ser a sua casa. E foram entrando, meio que se instalando.

A princípio, entraram com medo, receosos de que o teto lhe caísse sobre as cabeças ou que um vento mais forte deixasse parte da parede em suas mãos.

Mas, aos poucos, foram descobrindo os segredos da casa. E, descobrindo estes segredos, também descobriram a maneira de melhor acarinhá-la. E então puseram mãos à reforma.

À falta de vidros mais consistentes, começaram a cobrir as janelas com resistentes e escandalosas bolhas de sabão, cujo único problema é serem facilmente estouradas pelos dedos inquietos da molecada que, cada vez mais, brinca por ali. As paredes meio bambas foram, aos poucos, sendo reforçadas com páginas de poesia e contos, um ou outro romance ou crônica. O telhado, que andava bem pelas tabelas, ganhou o seu duplo com os tetos multicoloridos do cenário de uma peça há muito não encenada. As portas ganharam cores de primavera. E há pouco, o barulho do vento no meio das janelas foi substituído pelo som carinhoso de um acordeon, que não para nunca de tocar. SORRISOS

Os vizinhos, aos poucos, também foram se achegando aos artistas. Alguém trouxe um pote de biscoitos, outra uma cadeira de praia, um bule de café, uma trouxe pães de mel e outra trouxe um pão de méis, alguém chegou apenas com sorrisos (e quer mais?). Quem não tinha escada, trouxe um degrau.

Todo mundo auxiliando. E a casa indo.

Não está pronta, ainda falta um monte. Mas já dá para dizer que está com jeito de casa. E daqui a um tempo, com todos aqueles doidos e a vizinhança ajudando, certamente será a casa mais bonita da praça.


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