SETE DE MARÇO

Quando entraram na casa, chamados por vizinhos que haviam ouvido os gritos, os dois policiais mal conseguiram conter a revolta: a mulher estava encolhida na cama, ensanguentada como se recém houvesse saído do parto, o olho esquerdo mal fechado no meio de um inchaço vermelho, marcas de pauladas trilhando com crueldade os dois braços. Ela chorava como se não quisesse ocupar espaço, num pequeno ganido, voz miúda e sem esperança - as lágrimas secas há tanto.

Enquanto um policial acudia a mulher, o outro dava um vistaço às três pecinhas da casa, apenas para certificar-se que o marido não estava por ali. Mas não havia nada a reparar; apenas uns moveisinhos de caridade, latas em cima do fogão, roupas mal atiradas, uns esquecimentos pobres. O homem não estava. O vizinho que havia telefonado também aproveitara para dizer que ele sumira enquanto a mulher ainda gritava e que as surras eram comuns. E que talvez seria uma boa idéia procurarem o homem no bar.

“Eu já tou bem.” – disse a mulher. – “Vocês me deixem aqui.”

Os policiais a olharam, incrédulos; não, ninguém ali estava bem.

“Tá tudo bem, eu já disse!” – e a mulher tirou da garganta uma voz renascida em brios, imperiosa, enquanto tentava levantar-se para mostrar esta força que não tinha – “Me deixem aqui que daqui a pouco eu tou boa! É coisa pouca.”

“Mas quem foi que fez isso na senhora?” – perguntou um deles.

A mulher não disse nada. Apenas baixou os olhos e ficou observando as linhas tristes dos braços.

“A senhora sabe quem foi?”

O mesmo silêncio, o mesmo olhar que não sabia para onde ir.

“E a senhora não quer prestar queixa?” – perguntou o policial, já sabendo a resposta.

E então a mulher levantou os olhos, como se naquela hora as chagas houvessem desaparecido. Ou como se fingisse acreditar nisso.

“Não.” – respondeu ela. – “Nunca.”


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