NA FOTOGRAFIA

Na fotografia, vestimos nossos melhores sorrisos banguelas (pudera: quem não sorriria com aquela professora tão linda, dona Marisa, também sorrindo encantada, igual a uma fada, ao nosso lado?). Exibimos nossos guardapós listrados, distintivo da escola desbordando do peito, e no recreio nos haviam dito para não suarmos demais e depois pentearmos bem os cabelos, o que havíamos esquecido tão logo a recomendação fora dada (dona Marisa alisou minha cabeleira um pouco revolta após o jogo de futebol, a pressão morna e carinhosa de sua mão). Temos seis, sete anos neste retrato, somos apenas confiantes em nossas próprias alegrias e nem sabemos o que significa o futuro.

Tem quase quatro décadas esta foto que, comovido, agora examino.

Há, na fotografia, alguns rostos que não reconheço. Esta menina de cabelos longos e meio encaracolados, aquele garoto narigudo, este outro meio gordinho, a pequena de óculos – não sei quem são, memória que se perdeu nos dias. Talvez eles olhem a mesma fotografia e também não reconheçam aquele moleque dentuço e comprido que hoje sou eu.

E penso, então: por onde andarão? Alguns (algumas) seguiram próximos e amigos (amigas) em minha vida, com outros (outras) encontro e cumprimento de vez em quando, mas há aqueles (aquelas) a quem nunca mais vi. E há Maria Isabel, cujas tranças eu adorava puxar e por quem, ainda sem saber, eu era apaixonado.

(Onde andará Maria Isabel?)

Devolvo a fotografia à caixa onde a encontrei. Daqui a algum tempo, talvez eu a veja novamente, quando for procurar algum papel ou documento mais antigo. E olharei outra vez para ela e outra vez me comoverei, percebendo os meus seis anos desengonçados, a beleza eternizada da professora Marisa, os rostos que não sei, os amigos que ficaram, as tranças secretamente lindas de Maria Isabel, e aqueles olhares passados de inocência, de quando nem sabíamos o que era o futuro.

E o tínhamos inteirinho em nossa frente.


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