CENA URBANA

“Epa, epa!” Olha lá! Repara naquele negrão parado perto da entrada do nosso prédio!” – comenta o homem.

“Ai, meu Deus! E de mão no bolso, ainda por cima! Só pode ser revólver!” – exclama a mulher, já um pouco apavorada. – “Liga pra polícia, Anselmo!”

“Vou ligar já! Crioulo parado na esquina a essa hora, de mão no bolso!... Boa coisa não deve estar pensando!...”

“E olha lá! Tá conversando com o porteiro!” – a mulher.

“Ahã!!... Este porteirinho nunca me desceu muito bem. Magricelo metido, sempre quer uma conversa quando a gente passa e coisa e tal.. Vai ver é pra bisbilhotar e contar pra bandidagem...”

“Será?” – pergunta a mulher, ainda mais em pânico.

“Claro!.. Mas se o moreno tá conversando com o porteiro, não vai fazer nada agora. A gente tá seguro, por enquanto.” – responde o marido. – “Vamos passar e dar uma olhada disfarçada na cara dele. Depois, ligamos pra polícia e falamos que tem um elemento suspeito na nossa rua. E eles que venham.”

E se aproximam, os dois, do porteiro e do outro.

“Boa noite, dona Marcela.” – é o negro quem cumprimenta.

A mulher se surpreende quando a chamam pelo nome.

“Estou aqui esperando a Marilice.” – ele complementa.

A mulher titubeia um instante, depois se recompõe:

“Ah, sim! Ela já deve estar descendo! – e sorri, protocolar, enquanto ela e o marido já entram no prédio.

Esperam em silêncio pelo elevador social. Quando o ascensor chega, entram ambos também em silêncio. Só quando apertam o botão do décimo-segundo andar ela comenta:

“É o Gelson, namorado da Marilice, nossa empregada.” – e completa, como se tivesse algo importante a declarar – “Dizem que é uma jóia de rapaz...”


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