MADRUGADA

“Me vê um martelinho bem servido, Xicó!” – ela pede com a familiaridade de quem, lá pelas duas da manhã, faz isso todas as noites.
No boteco mal iluminado, os dois únicos clientes não prestam atenção àquela mulher antiga, mal pintada e de saia curta, que recém entrou, ocupados que estão em beber suas próprias cachaças. O dono do bar a serve com gestos de quem está acostumado. Ela toma um gole e ele repõe a bebida, carinho desajeitado.
“E aí? Como foi a noite?” – ele pergunta.
“Uma porcaria.” – a mulher responde, olhar parado no copo. Depois, mira o homem que a serve – “Tá assim há um tempão. Os anos vão passando e as coisas vão ficando mais difíceis pra gente.”
O dono do bar não diz nada, apenas observa a mulher enquanto ela bebe – ela termina a cachaça em poucos goles.
“Mais um.” – ela ordena.
“Bebe tranqüila. Sem alarde.” – ele avisa, ao tempo em que a serve novamente.
Ela talvez quisesse gritar, reclamar – fazer o alarde. Afinal, tem quase sessenta anos, e o mais justo consigo mesma seria estar em casa, àquela hora da madrugada, abrigada, dormindo no conforto simples da sua cama. Mas não: precisa estar na rua, ganhando na noite o pão de amanhã. Por isso, apenas acede com um gesto à ordem de Xicó: sim, vai beber tranqüila.
Termina o segundo copo e pede mais um. O dono da bar dá o aviso:
“Só mais este.”
Ela concorda, já sente um pouco a tontura da bebida. Mas é uma tontura que a ajuda; daí a pouco irá novamente à rua, não pode se dar ao luxo de terminar a noite sem nenhum cliente. Bebe este terceiro copo com mais vagar, como se retardasse a partida, e quando o termina pede a Xicó que coloque no caderninho – pagará no sábado, que é sempre um dia melhor.
“Certo.” – concorda ele, enquanto ela se levanta em passos um pouco incertos. – “Boa sorte. Quem sabe hoje aparece o teu príncipe encantado.”
“Quem sabe?” – ela sorri, enquanto já chega à rua, o sorriso raro e triste de quem sabe que este príncipe nunca chegará.


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