OS CINCO HOMENS VELHOS

O escritor está parado em frente à tela branca do computador, e não tem em sua cabeça cansada mais do que uma imagem: cinco homens velhos. É apenas isso o que tem na imaginação, por enquanto: nada mais a alimentar a história que pretende escrever.

Os cinco homens velhos.

Sobre o que conversarão estes homens velhos de sua história? Falarão de suas infâncias (os olhos marejados), de suas possíveis viuvezes, da aposentadoria sempre menor do que deveria ser, da ida ao médico, dos olhos que pouco enxergam, da dor nas costas, da pontada no coração (a saudade)?

E onde estarão estes cinco homens velhos, na história que pretende escrever? Talvez estejam lagarteando ao sol com suas mantas e bonés de feltro ou lã, jogarão damas no tabuleiro da praça central da cidade (que cidade?) , se encontrarão por acaso na sala de espera do consultório médico, ao redor de xícaras de café preto, quem sabe até em um velório?

E quando não mais estiverem ali (ali, onde?), juntos, para onde irão estes cinco homens velhos? Para as casas em que vivem com a esposa e um gato que dorme o dia inteiro, aos apartamentos onde moram sozinhos, aos quartos um pouco tristes das pensões, aos hoteizinhos simples em cujos corredores se encontram com outros homens velhos?

Tudo chavão, tudo lugar comum – pensa o escritor. E não quer escrever uma história de lugares comuns.

Deseja algo além daquelas histórias que se vêem sempre, dos velhos reclamando de dores ou da aposentadoria, que apenas jogam damas para passar o tempo. Mais do mesmo, o tempo inteiro.

Porque pode ser muito mais do que isso, decide o escritor. Algo bem diferente.

Por que, em sua história, não podem estes homens velhos, por exemplo e por alguma razão, estar vestidos e brincando de super heróis? (Aliás, por que não podem estes homens velhos ser, verdadeiramente, super heróis?)

É isso, alegra-se o escritor: os meus homens velhos serão super heróis. É sobre isso que quero escrever.

E a página do computador, de repente, se enche de cores.


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