OS CINCO SUPER HERÓIS

O primeiro foi Ramiro, que anda por volta dos setenta e a vida inteira foi meio doido, quando apareceu na praça vestindo uma máscara do Batman. Num silêncio cheio de humor, invadiu a conversa dos quatro outros amigos, que falavam sobre as mazelas da aposentadoria ou de um novo remédio que alguém havia inventado, e precisaram interromper o assunto para dar as necessárias risadas. Quando pararam de rir, perguntaram ao amigo pancada o que significava aquilo.

“Nada de mais, ué! Só pensei que dava para fazer alguma coisa diferente, mais divertida. Peguei a máscara do meu neto e coloquei. E vim brincando de Batman pelo caminho. Precisavam ver o susto, a reação das pessoas. Todo mundo rindo.” – e ele riu também.

Os outros riram novamente – o Ramiro sempre aprontando.

No outro dia, Breno – o mais novo da turma, anda pelos sessenta e pico – veio com a máscara do Zorro e uma espadinha de plástico enfiada na cintura. Ramiro, que vestia novamente a carantonha do Batman, foi o primeiro a dar risada.

“Mas é bem isso, mesmo” – confirmou o Breno – “As pessoas dão risada de um velho vestido de super herói. E quem não ri, eu ameaço com esta espada!” – divertiu-se.

E entraram numa discussão bem humorada sobre se o Zorro seria ou não super herói.

No dia seguinte, à mesma hora, mais dois apareceram com suas vestes: o Rubem havia enjambrado uma máscara do Homem Aranha e o Amaral desenterrara da memória algo que se parecia à do Fantasma. Só o Gilberto ainda parecia não haver se incorporado na brincadeira. Mas ele explicou, apontando para os próprios óculos:

“Eu sou o Clark Kent.” – e, depois de tirar os óculos – “Mas agora, sou o Super Homem.”

E gargalharam todo, felizes, redescobertos em suas infâncias.

*****

Andam assim, agora. Todo dia se encontram e sempre alguém aparece com uma nova surpresa, a capa do Mandrake ou a anteninha do Flash. Dão risadas fáceis, os cinco homens velhos; parecem todos mais jovens.

E a molecada que vive pela praça agora os chama de super heróis.


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