JOGANDO BOLA NO CÉU

Eles chegaram todos ao mesmo tempo, um pouco surpresos e ainda sem saber por quê, e se olhavam entre si e ao redor, também sem saber onde estavam. Aquela luz nova e azulada – o que era tudo aquilo? E também não lembravam muito bem o que tinha acontecido; o pouco que lembravam, não queriam lembrar.

Ficaram todos parados um tempo, acostumando-se àquela luz nova e desconhecida, e meio que se abraçaram porque assim era mais fácil de acostumar – qualquer problema que houvesse, se resolveria mais fácil se estivessem todos juntos.

Quando se acostumaram à luz, perceberam que o lugar onde estavam bem poderia servir como campo de futebol. Não que fosse um gramado, nem havia naquele espaço qualquer marcação de cal e nem goleiras ou bandeirinhas de escanteio. Mas era um espação enorme e meio liso, quase plano, semelhante aos campinhos inesquecíveis da infância, onde haviam dado os primeiros chutes ou defendido as primeiras bolas, e era só usar um pouco de imaginação para transformar-se num estádio lotado. Servia, pensaram eles.

Mas alguém trouxe bola? - perguntaram. Sim, alguém trouxera (e se não, improvisariam com o que houvesse – os pares de meia, as camisetas, um pedaço de nuvem).

Mas antes que se escolhessem entre si (tu prá cá, tu prá lá), começaram a aparecer uns outros. E os recém chegados pareciam não acreditar quem aparecia: Euzébio, Escurinho, Fernandão, Nilton Santos, Puskas, Di Stefano, Carlos Alberto Torres, Barbosa, Everaldo, Dener, o Claudio Milar, Kita, Alcides Ghiggia. Mais distante, parecendo que combinavam algo, conversavam o Telê e o Enio Andrade. E num canto, sorriso desajeitado, sem falar nada mas já calçando as chuteiras nos pés das pernas tortas, o Garrincha. O Garrincha! – pensaram todos.

“A gente estava esperando vocês para começar o jogo.” – falou alguém, tanto faz quem foi. – “É às brinca, como tem que ser, mas quem perder paga um sorriso.”

Os recém chegados se olharam todos e pensaram que dava para encarar todos aqueles craques. Até porque eram mesmo um time completo, pronto para o jogo. Pode ser, responderam eles – rindo.

E começaram a jogar bola, todos eles. Afinal, é o que mais adoram fazer na vida.


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