PALAVRARIA

As casas também são feitas de palavras, e nas palavras também vive a vida – pensaram os três, combinando sem combinar, quando decidiram se lançar na empreitada insone de cortar as fitas e abrir as portas do sonho em comum.

Os três. Os três feitos de matéria e fibra, de vontade e braços.

E estes braços arregaçaram mangas e colocaram as mãos à obra (obra! – talvez não haja palavra melhor). Ergueram paredes de contos, ladrilharam o chão com poesia, puseram romance nas mesas, temperaram de histórias os cafés, encheram de boas crônicas o dia-a-dia. Tudo aos poucos, braço a braço.

E tudo os três. Acordando cedo, os três. Dormindo tarde, os três. Carregando caixas, subindo escadas, aguardando livros, negociando preços, consertando canos – os três. Os amigos sempre por perto, sabendo que a casa valia ouro e merecia os tantos cuidados, mas quem segurava as paredes? Os três.

Todo o tempo o tempo inteiro, todos os dias os dias todos – os três.

Mas então houve uma hora em que os braços dos três, depois de anos construindo a casa todos os novos dias, talvez tenham começado a cansar. Digo talvez, porque não sei ao certo. Os amigos, mesmo assim tão perto, provavelmente não tenham percebido, distraídos que estavam, lendo a beleza das paredes feitas de livro e palavra, ou jogando conversa fora ao longo de cafés que esfriavam sem passar o tempo.

Até a hora em que os três declararam que seus braços haviam mesmo cansado, e então os amigos se surpreenderam. Eu ajudo eu ajudo eu ajudo eu ajudo – as vozes todas num uníssono desordenado.

Eu também quero segurar estas paredes – pareceram dizer todos.

Não sei se a hora em que os amigos disseram isso ainda era a hora e também não sei como termina este conto – que, na verdade, nem sei se é mesmo um conto, e acho que quero que ele não termine.

Só o que sei é que os três merecem todos os abraços.


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