A PRIMA JULIANA

E, de repente, nos enormes almoços familiares de domingo, ninguém mais dos grandes falava na prima Juliana. Nós, os pequenos, pouco nos dávamos conta, empenhados que estávamos em terminar nossas sobremesas e jogar bola ou brincar de super heróis no tapete mágico do pátio da casa da avó.

Mas os grandes, sim. Juliana era uma espécie de joia rara da família, para quem – sem que ela pedisse – estavam reservados os melhores futuros e pedaços de lasanha. Inteligente, educada, conversava de igual para igual com as tias e tios, e por seus dezoito anos recém-feitos éramos todos nós, os primos suarentos e desengonçados, inteiramente apaixonados. Juliana era a nossa musa inatingível – porque era nossa prima e porque pouco parecia enxergar a aqueles moleques que fazíamos de tudo para lhe chamar a atenção.

Mas houve o domingo em que Juliana não foi. Na mesa, entre os adultos, um silêncio sem nome, enquanto as cadeiras de todos se afastavam um pouquinho para que não ficasse entre elas o vácuo de quem não estava e a naturalidade artificial fosse de todo quebrada. Olhamo-nos, os pequenos, e um de meus primos chegou a perguntar onde estava a Juliana, mas os grandes todos se limitaram a fingir que não haviam escutado, enquanto se alcançavam as travessas de salada e maionese. Apenas tia Mara, mãe de Juliana, levantou-se rapidamente para ir ao banheiro. Nós, os pequenos, nos olhamos meio atarantados, tristes que estávamos de não ter aquela beleza toda em nossa frente, mas o fato é que nada era mais importante do que o almoço (a sobremesa) e nossa algaravia de crianças, e logo depois já havíamos esquecido aquela ausência.

Na semana seguinte, Juliana também não estava. Perguntamos outra vez, mas os adultos nem tentaram fingir que não tinham escutado. Apenas nos olharam, como se nossa impertinência fosse mais grave do que a ausência da prima, e seguiram comendo em seus comentários leves e risadas sem graça, enquanto tia Mara corria novamente ao banheiro.

Então nos acostumamos à ausência de Juliana – e ao silencia disfarçado que a acompanhava.

Até porque desde o início sabíamos – e sem que os adultos soubessem que sabíamos -, porque ela mesma nos contara, entre cochichos cúmplices e pedidos de silêncio, que não nos veria mais nos almoços de domingo porque estava apaixonada por um trapezista e fugiria com o circo na próxima semana.


 

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