OS OLHOS AZUIS, AZUIS

O velho abriu os olhos apenas quando o filho pediu e então ficou em silêncio por quase um minuto, mirando vagarosamente de um lado ao outro, como se quisesse aproveitar bem o que via - os olhos azuis, azuis.

“E então?” – perguntou o filho, emocionado, enquanto colocava a mão sobre o ombro do pai, carinho tímido e desacostumado.

´É maior do que eu pensava. Muito maior” – respondeu o pai, em emoção igual. E, quase com surpresa, colocou a mão sobre a mão que repousava em seu ombro, piscando sem perceber os seus olhos azuis, azuis.

“Te falei que era. Valeu a viagem?” – o filho sorriu, nozinho teimoso na garganta.

“Ah, se valeu!...” E o velho não disse mais nada por um tempo, apenas respirando aquele ar novo e desconhecido e olhando o longe, até onde nem conseguia mais olhar, os olhos azuis, azuis.

O filho também permaneceu em silêncio, saboreando o silêncio emocionado do pai. Olhavam ambos para frente, juntos sem precisar dizer, ambos sentindo a companhia forte do outro e de tudo aquilo que agora os rodeava.

Até que o filho rompeu a mutez:

“Vamos dar uma caminhada?”

“Espera um pouco.” – pediu o pai. – “Só mais um pouquinho.” – e seguiu mirando como se nada mais houvesse, os olhos azuis, azuis.

O filho decidiu esperar o tempo que o pai quisesse. Tantas horas de viagem, o velho agüentando o cansaço em seu corpo de oitenta anos apenas para aquilo, que a emoção não poderia ser breve.

Ficaram assim bem uns cinco minutos, sem dizer palavra.

Até que o pai finalmente se voltou para o filho e disse que agora poderiam caminhar.

E foi nesta hora que o filho se surpreendeu, ao perceber que os olhos do pai, a vida inteira tão castanhos, haviam ficado azuis, azuis, nesta primeira vez que ele via o mar.


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