O MAIS TRISTE

O casal brigando no restaurante, um atirando sobre os ombros do outro os pesos dos seus próprios insucessos, de suas angústias, mágoas. Isso é triste.

Mas não é o mais triste.

Eles discutem como se estivessem sozinhos, nada mais lhes importa – muito menos os outros clientes do restaurante, que escutam as pequenas barbaridades que eles mutuamente se jogam, farpas e dardos meio sem destino. Isso é triste.

Mas não é o mais triste.

Quando o homem começa a falar mais alto, gritando de propósito para reafirmar-se como macho, quando ele bate na mesa com o punho cerrado e a mulher se assusta e pede a ele que se acalme, que não grite – isso é triste.

Mas não é o mais triste.

E quando se percebe que, aos gritos do homem, os demais clientes olham para outros lados, fingem que não escutam, ou comentam entre si que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher – isso também é triste.

Mas não é o mais triste.

Há uma criança sentada junto a eles, menina de seis ou sete anos, daquelas loirinhas cacheadas que fariam sucesso em comerciais noruegueses de xampu infantil, e que come silenciosamente a comida que está em seu prato. Isso é triste, muito triste.

Mas não é o mais triste.

O casal – eles certamente são os pais da loirinha cacheada – está tão imerso na briga, ambos tão fortemente atados à necessidade de vencer, que nenhum deles presta atenção ou mede as palavras por causa da filha. Isso é imensamente triste.

Mas não é o mais triste.

É que se alguém olhar um pouco mais de perto, perceberá a lágrima parada nos olhos da menina, a força muda que ela faz para que esta lágrima não caia e não desabem sobre elas as responsabilidades que não tem e que sequer sabe como pensar, que pai e mãe se atirem mutuamente a culpa sobre aquele choro e a briga seja ainda maior. A menina chora sem chorar.

E isso é o mais triste.


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