A AMIZADE

O mendigo, envolto em roupas de caridade que lhe sobram nos ombros e apertam nas pernas, acabou de receber de uma alma boa o pacote fechado, dois sacos plásticos entrelaçados.

“Tem comida bem gostosa aí.” – disse a alma, enquanto lhe alcançava o pacote.

Ele sorri o seu sorriso de dentes poucos e escuros, algo desconfiado: tantos pacotes cheios de lixo já recebeu, que é sempre bom cuidar.

Abre o pacote após a pessoa se afastar, um pouco para não lhe dar o prazer da risada se o pacote fosse uma brincadeira malvada, outro tanto para poder melhor se deliciar se não fosse.

É comida. E comida bem boa, como a pessoa havia mesmo dito: feijão e arroz misturados, bolinhos de batata, polenta e uns pedaços de carne de panela.

“Olhaí, Sansão! Dalila! Comidinha prá nós!” – e passa o pacote na frente do casal de cuscos que a vida inteira o acompanha. Os cachorros farejam a refeição próxima, focinhos tremendo numa ansiedade feliz, e Sansão chega a sapatear no chão.

“Calma, Sansão! Tem pra todo mundo!” – e depois, voz de comando, prontamente atendida. – “Sentem, os dois. Esperem aí.”

Ele pega duas folhas de jornal, de dentro das tantas sacolas que carrega. Deposita-as no chão, uma em frente a cada cachorro, e serve nas mesmas duas porções de comida mais ou menos iguais – um pedaço de carne de panela para cada um. Dalila é servida antes – as damas primeiro, comenta o mendigo – e ganha um pouquinho mais, porque é maior. Quando estão ambos servidos, o homem olha para os pratos improvisados, a ver se as quantidades estão mesmo em equilíbrio, e então é a sua vez de se servir.

De uma sacola, retira um pote plástico, tão limpo quanto possível, e é ali que deposita o restante da comida que havia recebido (um pedaço de carne para ele, também).

Olha para os dois cães, que esperam sentados, e senta-se no chão, logo ao lado deles. Acaricia um e outro, depois comanda:

“Agora vamos comer.” – Sansão e Dalila não esperam nova ordem.

E comem os três juntos, prazerosos, celebrando a amizade.


 

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