REPOLHOS SÃO MAIS DO QUE ISSO

Ele escolhia batatas como sempre fazia naquele supermercado; um olho examinava as possibilidades do tubérculo, o outro examinava as belas mulheres que circulavam pelo setor de frutas e verduras. Era mais uma diversão descompromissada de homem solteiro do que propriamente uma obrigação; bem poderia pedir uma tele-entrega todas as noites e estaria tudo resolvido. Vinha mais pelo desfile de mulheres bonitas do que pelas laranjas ou cenouras – dos quais, aliás, sequer gostava muito.

Mas então ela apareceu.

Não era a beleza propriamente dita - embora a tivesse em sobra -, mas algo além: a forma como caminhava entre os corredores de verduras, a elegância com que manejava o carrinho, a sabedoria na escolha das cebolas, a quase ternura com que examinava a saúde das batatas. Algo havia a mais nesta mulher que recém enxergava pela primeira vez, beleza nova nestas noites de mercado. Quem sabe não é ela a mulher da minha vida, pensou ele – sério. Ou, se não isso tudo, ao menos a chance de alguma noite agradável?

E sorria para ele.

Resolveu segui-la, estudá-la ainda um pouco, perceber a clareza dos seus movimentos – para descobrir, quem sabe, a hora certa de abordá-la. Porque iria abordá-la, isso sim; cobraria de si mesmo se não o fizesse.

Seguiu-a de uma forma quase despudorada, acintosa, fingindo que olhava as verduras sem sequer saber bem ao certo o que eram, se radiche ou chicória – mas pouco importava. Ela seguia seu caminho, a cada passo mais linda, a cada instante mais a mulher de sua vida. E sorrindo para ele, sempre. Um sorriso tímido, meio envergonhado, de bochechas coradas, o sorriso de quem não sabe muito como fazê-lo – mas talvez fosse isso o melhor daquele sorriso.

E então, num quase pulo, ele acercou-se – na exata hora em que ela, mão direita em concha, sopesava um repolho. Ela pareceu assustar-se com a rapidez daquela presença esperada apenas para daqui a pouco e, nesse susto, talvez tenha achado que precisasse dizer algo.

“Adoro repolho.” – falou ela.

Adoro repolho, ela havia dito. Ele estacou: não poderia ser a mulher de sua vida alguém cuja primeira declaração era a de que adorava repolhos. Num instante, evaporou-se o castelo que vinha construindo desde que a vira. Além disso, ele detestava repolhos.

“Pois é... ” - disse ele – e foi para a outra gôndola, dar uma olhada nos pimentões.


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