CENA PEQUENA

A mulher entrou no restaurante e apenas sentou-se, em ruidoso silêncio, junto ao casal que ocupava uma mesa bem ao fundo. A moça que já estava sentada tomou um susto mudo com a intromissão; o homem arregalou os olhos, medo súbito, e não disse nada.

A recém chegada cumprimentou a ambos, irônica polidez na voz.

“Boa noite ao casal.”

E, antes que qualquer dos dois tivesse tempo de responder, ela perguntou à jovem:

“Sabe que este senhor aqui é casado? E que, segundo as informações que ele mesmo prestou, deveria estar numa reunião de negócios fora da cidade?”

Suspirou com raiva e alisou a faca que o homem havia largado sobre a toalha. Depois adendou, contida:

“Eu sei disso porque ele é casado comigo. Temos dois filhos – que estão em casa, agora, pensando que o pai está viajando e que a mãe foi numa exposição de arte.”

O homem não dizia nada, apenas olhava o próprio prato como se este fosse uma espécie de fundo do mar. A moça olhou para ele, e sua surpresa parecia legítima:

´É verdade isso, Marcelo?”

“Ahã.” – e era apenas um murmúrio derrotado.

“É verdade isso, Marcelo? Responde, por favor!” – perguntou novamente a moça.

´É, sim. Respondo eu, porque ele não tem coragem de falar.” – informou a mulher, enquanto se levantava, tremor invisível nas mãos.

“Bom apetite para vocês.” – ela sorriu à outra, quando já se afastava.


***

Quando Marcelo chegou em casa, pouco tempo depois, as chaves do apartamento haviam sido trocadas.

E a mala com suas roupas estava no corredor.


 

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