INFÂNCIA MODERNA

“E aí, filho, pronto para ganhar os chocolates de Páscoa?” – o pai, ansioso.

“Chocolate, pai??” – o menino de nove anos.

“Claro, garoto. Um ninhão cheio deles...”

“Mas o que é isso? E a minha saúde, onde é que fica?”

“Como assim?”

“Pai, todo o mundo sabe que açúcar demais faz mal à saúde! E um ninho cheio de chocolates também é um ninho cheio de açúcar!”

“Sim, mas é Páscoa...”

“Não é desculpa. Depois a gente cresce enorme, cheio de problemas e com a saúde prejudicada para toda a vida e vocês, estes irresponsáveis, ficam se perguntando por que é que aquilo aconteceu. Uma geração inteira condenada à gordura, por causa da permissividade dos pais!...”

“Permissividade? Quem te ensinou esta palavra?”

“Não vamos mudar de assunto. O assunto é o ninho de Páscoa e o veneno que vem com ele!”

“Mas um chocolatinho só, meu filho!”

“Um hoje, outro amanhã: os grandes vícios começam pequenos!”

“Mas isso não vai acontecer!”

“Nunca se sabe. Do jeito que andam os pais, tudo é possível. Pais que enchem os filhos de chocolate sem se preocupar com a saúde deles, são capazes de tudo!...”

“Nossa, nunca pensei nisso. Desculpa, filho, desculpa.”

“Desculpo, claro. Eu sei que vocês não fazem por mal...”

“Nunca.”

“Mas vocês devem pensar antes no que é mais importante, e não apenas nestas coisas de tradição e que acabam se transformando só numa data para vender chocolate e mais chocolate.”

“Claro, claro...”

Um silêncio, então. O pai, ansioso; o filho, só esperando.

“Mas a Páscoa não pode passar em branco, filho. Os pais sempre dão presentes aos filhos nesta data. E se a gente não te der um ninho, precisamos ao menos te dar uma lembrancinha. O que é que pode ser, então?”

Novo silêncio. E então o garoto:

“Um Playstation 3, quem sabe?”


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A CIDADE EM OLHOS DE PRESENTE

ESPÍRITO DE NATAL

SURPRESA NA CHAMINÉ

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O GURI DALTÔNICO CHEGA AO CÉU

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AQUELE SILÊNCIO

A ESCURIDÃO

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