PRESENTE

Eu acabara de receber o troco dos crisântemos que havia comprado quando o menino entrou na floricultura. Teria nove ou dez anos, não mais; na mão direita carregava um punhado de moedas com o mesmo cuidado com que transportaria um tesouro recém encontrado.

“Oi. Me vê isso tudo de flor. Quero dar de presente para a minha mãe.” – e dispôs as moedas cuidadosamente sobre o balcão, olhando sua pequena fortuna.

Eram umas moedinhas de nada; a atendente da floricultura contou-as todas e a verdade é que elas não alcançavam o preço de uma flor. Ela contou-as novamente e já se preparava para dizer ao garoto que o dinheiro não era suficiente, quando levantou o olhar e soube que não conseguiria fazê-lo. Os olhos do menino eram de tanta expectativa, tanta era a vontade de presentear a mãe, que a vendedora decidiu que não queria ter forças para negar aquele desejo.

“Este dinheiro dá para comprar uma flor bem bonita.” – disse ela, e o rosto do menino pareceu se iluminar.

“Não, eu acho até que dá mais do que isso.” – resolvi me intrometer, calada que estava até então, assistindo a cena que já me enchia de lágrimas a garganta. – “Tem aquelas rosas que estão em promoção. Acho que este dinheiro dá para umas quatro, não dá?” – e meu olhar se cruzou, cúmplice, com o da vendedora: não havia necessidade de dizer mais nada.

“Nossa!” – riu o menino – “Não pensei que o meu dinheiro dava para tanta flor!”

“Mas dá, sim.” – comentou a vendedora, enquanto olhava sorridente para mim e já preparava o buquê com seis rosas brancas e amarelas. O menino examinava o trabalho da garota com a atenção solene dos grandes momentos, sem dizer uma palavra – não queria correr o risco de atrapalhar a moça naquela hora tão importante.

Quando a vendedora terminou, exibiu-nos o cuidadoso resultado.

“Que tal?” – perguntou ela ao menino.

“Está lindo, moça. Minha mãe vai adorar.”

E pegou o buquê com carinho ainda maior com que antes carregara as moedas de seu tesouro. Depois, atravessou a rua em direção ao cemitério, para dar o presente à mãe.


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