ESTE BARULHO

Este barulho.

Quando começa a anoitecer, começa também a minha angústia. Porque eu sei: é só apagar as luzes, deitar na cama para dormir (tentar dormir), fechar os olhos – e o barulho começa. Todas as noites, sem falhar uma, há meses que parecem anos e cujos dias já são incontáveis, e que me fazem encher as madrugadas de insônia e cansaço, pesando e pesando as horas. O mesmo barulho, sempre: o ruído exato e seco de alguém forçando as portas ou as janelas da casa, buscando abri-las – estalos e rangidos carregados de mal, certamente mais próximos de conseguir o que querem a cada noite que passa. Não é sempre a mesma porta ou janela, cada madrugada me surpreende com medos vindos de um lugar diferente; quem o faz sabe fazê-lo, sabe jogar com esta agonia que me vara como um dardo embruxado, como danação. Fecho os olhos, tento dormir – e o barulho lá embaixo. Salto da cama e minha mulher continua ressonando como se nada estivesse acontecendo, como se não houvesse qualquer barulho. Corro ao quarto dos meus filhos e eles também dormem seus sonos de adolescentes invencíveis, sem saber que o mal está lá fora, tentando entrar, e que apenas o seu pai vela por esta tranqüilidade. Então sacudo o medo e procuro o barulho, vou atrás desta ameaça cotidiana, tentando vencê-la, quebrá-la, terminá-la – mas nada. Escuto o barulho na janela da sala e, quando chego lá, ele já está na porta da garagem; corro à garagem e os estalos vêm da janelinha do banheiro. Sempre assim, este jogo sem alegria, este embrulho nervoso. De repente, cessa o ruído, a noite é invadida por um silêncio brutal, nervoso. Então volto para minha cama – minha mulher e meus filhos seguem seus sonos, ainda bem -, cheio desta desesperança que cada vez mais se crava em meus olhos, porque sei que, daqui a pouco, estes barulhos vão recomeçar. E recomeçam, tão logo o sono comece a chegar. E assim por diante, toda a noite – e todas as noites.

Este barulho.

Este barulho ainda vai me enlouquecer.


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